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Educación Física y Ciencia

On-line version ISSN 2314-2561

Educ. fís. cienc. vol.23 no.4 Ensenada  2021

http://dx.doi.org/https://doi.org/10.24215/23142561e196 

Artículos

Análise das publicações do Conselho Federal de Educação Física no Instagram® durante a pandemia da Covid-19

Analysis of the Federal Council of Physical Education's publications on Instagram® during the Covid-19 pandemic

Análisis de las publicaciones del Consejo Federal de Educación Física en Instagram® durante la pandemia de Covid-19

1Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

2Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

3Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

4Departamento de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação. Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca. Instituto NUTES da Universidade Federal do Rio de Janeiro

5Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Resumo

Com o advento da pandemia do novo coronavírus, dentre os meios de comunicação com a população destacam-se as redes sociais. Assim, o objetivo deste artigo foi analisar as publicações do Instagram® do Conselho Federal de Educação Física do Brasil durante a pandemia, enfatizando as atividades de comunicação com os profissionais de educação física e a população geral no combate ao coronavírus. Realizou-se uma investigação netnográfica, com análise qualitativa das publicações. Entre 11 de março de 2020 a 01 de julho de 2021, 96 postagens foram feitas na rede social. Dessas, 53 estavam vinculadas à pandemia. Percebeu-se um forte discurso biomédico envolvendo a saúde, especialmente nos episódios de uma websérie lançada para reforçar a importância da atividade física durante a pandemia. Além disso, a cobrança dos profissionais de Educação Física por assistência do conselho foi recorrente. Ademais, houve reduções significativas de publicações envolvendo a pandemia no período em que o país atingiu o maior número de mortos. Embora existam vastas informações nas publicações reforçando a importância dos exercícios físicos para a saúde, esperava-se do Conselho abordagens mais coletivas e intensificação da divulgação sobre os cuidados necessários para o enfrentamento da pandemia, como, por exemplo, a vacinação

Palavras-chave Educação Física; Pandemia; Instagram; Conselho Federal de Educação Física; Saúde

Abstract

With the advent of the new coronavirus pandemic, social media is playing an important role in communication. The aim of this article was to analyze the publications on Instagram® of the Federal Council of Physical Education during the pandemic, emphasizing the activities of dissemination and communication with physical education professionals and the general population to combat the coronavirus. Netnographic research was used, with a quanti-qualitative analysis of the publications. From the beginning of the pandemic to July 1st 2021, 96 posts were made on the social network. Of these, 53 were linked to the pandemic. The physical education professionals’ demand for assistance from the Council during this period was verified as well as the content of the publications with the biomedical perspective of health. Furthermore, in the first half of 2021, there was a significant reduction in publications involving the pandemic, the period in which the country reached its highest death toll. Although there is vast information reinforcing the importance of physical exercises at this time and exercises suggestions, more collective approaches were expected from the Council to health and intensification of the dissemination about the care needed to face the pandemic, such as vaccination.

Keywords Physical Education; Pandemic; Instagram; Federal Council of Physical Education; Health

Resumen

Con la llegada de la pandemia del nuevo coronavirus, entre los medios de comunicación con la población destacan las redes sociales. Así, el objetivo de este artículo fue analizar las publicaciones en Instagram® del Consejo Federal de Educación Física de Brasil durante la pandemia, destacando las actividades de comunicación con los profesionales de la educación física y la población en general en la lucha contra el coronavirus. Se realizó una investigación netnográfica, con análisis cualitativo de las publicaciones. Entre el 11 de marzo de 2020 y el 1 de julio de 2021, se realizaron 96 publicaciones en la red social. De ellos, 53 estaban relacionados con la pandemia. Se observó un fuerte discurso biomédico relacionado con la salud, especialmente en los episodios de una webserie lanzada para reforzar la importancia de la actividad física durante la pandemia. Además, la demanda de ayuda de los profesionales de la educación física al consejo fue recurrente. Además, se redujeron considerablemente las publicaciones relacionadas con la pandemia en el periodo en el que el país alcanzó el mayor número de muertes. Aunque existe una amplia información en las publicaciones que refuerzan la importancia de los ejercicios físicos para la salud, se esperaba del Consejo un enfoque más colectivo y una intensificación de la difusión sobre los cuidados necesarios para afrontar la pandemia, como la vacunación.

Palabras clave Educación Física; Pandemia; Instagram; Consejo Federal de Educación Física; Salud

INTRODUÇÃO

A Pandemia da COVID-19, decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2020, fez com que a humanidade se reorganizasse a fim de manter, minimamente, suas atividades. Após dezesseis meses de pandemia, mais de quatro milhões de mortes pelo Sars-CoV-2 – o novo coronavírus – foram contabilizadas no mundo.

No Brasil, país cujo quantitativo de mortes é o segundo maior do mundo, cerca de 600 mil pessoas, até o momento, perderam a vida por complicações decorrentes do vírus (Ministério da Saúde, 2021). Dentro deste contexto, a luta contra o vírus se tornou ainda mais desafiante diante o incentivo aos tratamentos precoces cientificamente ineficazes (medicamentos); enfraquecimento do Sistema Único de Saúde (SUS); negação e constantes cortes de verbas destinadas às pesquisas e à ciência; lentidão na negociação de vacinas para a população; falas inapropriadas em relação aos outros países que dificultaram a compra de vacinas e insumos para sua produção no Brasil; entre outros (Caponi, 2020; Morel, 2021).

Nesse sentido, tem feito parte da agenda de Saúde Pública brasileira enfrentar não só o novo coronavírus, mas, também, a desinformação propagada, principalmente nos meios eletrônicos de informação. Entre as principais vias de comunicação se encontram as redes sociais. Assim, ao mesmo tempo em que essas plataformas digitais podem ser aliadas estratégicas na divulgação sobre medidas preventivas de combate ao vírus à população, também se tornam rápidas fontes de desinformação e propagação de notícias falsas – as denominadas fake news (Palácio & Takenami, 2020).

No Brasil, no que diz respeito à Saúde Pública, o principal resultado dos profícuos debates em torno do tema da saúde, na década de 1970, resultou na instauração do SUS, maior sistema de Saúde Pública do mundo que, entre outras atribuições, orienta a formação profissional em saúde (Bahia, 2018; Brasil, 1988). Nesse Sistema, diversas áreas, para atender a população, atuam em consonância, como, por exemplo, a medicina, a enfermagem, a psicologia, o serviço social, a nutrição, a terapia ocupacional, a fisioterapia, a odontologia, a saúde coletiva e, dentre outras, a Educação Física. Esta, recentemente, vem travando diálogos cada vez mais próximos da saúde, como permite supor o expressivo aumento de produções voltadas ao tema observados por Ramires et al. (2014) e Neves et al. (2015).

A relação que permeia a Educação Física e a Saúde, desde sua gênese enquanto área do conhecimento, apresenta fortes elementos biomédicos (Oliveira & Gomes, 2020; Palma, 2020). Assim, as práticas corporais provenientes da Educação Física são enxergadas majoritariamente como fazeres benéficos ao organismo biológico, à aptidão física e, consequentemente, à prevenção de doenças. Por outro lado, a determinação social da saúde, compreendida enquanto os fatores sociais, econômicos, raciais, ambientais, de gênero, entre outros, que podem facilitar ou dificultar a saúde individual e coletiva, inclusive a prática de atividades físicas, quase sempre, é ignorada (Pasquim et al., 2021; Carvalho et al, 2021; Palma, 2017).

Durante a pandemia têm prevalecido os discursos envolvendo a prática de atividades físicas e a “saúde” que elas podem resultar (Pasquim et al., 2021). Além dos benefícios imunológicos, psicológicos e sociais decorrentes da prática de exercícios físicos, os discursos em torno da essencialidade dessas práticas no contexto pandêmico se tornam importantes elementos a serem analisados, sobretudo quando eles se materializam, por exemplo, na reabertura de academias de ginástica ou musculação – ambiente cuja propagação do vírus poderia ser mais propícia (Pasquim et al., 2021; Carvalho et al., 2021).

Na Educação Física, a entidade responsável pela regulamentação da profissão é o Conselho Federal de Educação Física (Confef). O Confef foi criado através da Lei Federal nº 9.696 do ano de 19981 e possui como uma de suas finalidades “normatizar, orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício das atividades próprias dos Profissionais de Educação Física e das pessoas jurídicas, cuja finalidade básica seja a prestação de serviços nas áreas das atividades físicas, desportivas e similares”. Além do estabelecimento dessas regulamentações, ao Confef, também cabe, dentre outras atribuições: “divulgar a Educação Física, o Profissional e o Sistema CONFEF/CREFs” (Confef, 2021).

Uma vez entendida a importância das mídias sociais na pandemia, podendo auxiliar profissionais da saúde, Ministérios e Órgãos competentes na informação e divulgação à população sobre as medidas eficazes de combate e prevenção ao coronavírus, questiona-se como o Confef, através da rede social Instagram®, comunicou-se com os profissionais de Educação Física e a população no sentido de divulgar informações referentes às atividades físicas, à saúde e ao combate ao coronavírus.

Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi analisar as publicações do Instagram® do Conselho Federal de Educação Física durante a pandemia, enfatizando as atividades de divulgação e comunicação com os profissionais de Educação Física e a população em geral no combate ao novo coronavírus.

MÉTODO

Kozinets (2014) afirma que devido a adesão em massa às redes sociais, torna-se fundamental que sejam pensadas metodologias que observem a interação realizada por meio das tecnologias digitais, a internet, o computador e os seres humanos. Esse método, de acordo com o autor é denominado de netnografia. Sendo assim, no presente estudo, realizou-se uma investigação netnográfica. Especialmente durante a pandemia, pesquisas netnográficas estão sendo realizadas com maior frequência, fato justificado pelo distanciamento social necessário e pela viabilidade de acesso às informações disponíveis nos meios eletrônicos. Entende-se que as redes sociais se configuram como ambientes interessantes, pois podem ser o objeto de estudo, local de pesquisa, ou, ainda, instrumento de pesquisa (Fragoso et al., 2011).

De acordo com Sheldon & Bryant (2016), uma das redes sociais que mais cresceu em todo o mundo, na última década, foi o Instagram®. Criado em 2010, permite aos usuários o compartilhamento de fotos, vídeos, áudios e chamadas de vídeo. Por isso, vem sendo usado como fonte de divulgação e comunicação entre Órgãos Oficiais do governo e a população em geral (Sues, 2014). Durante a pandemia, a própria OMS, bem como, o Ministério da Saúde brasileiro, estão utilizando a plataforma para se comunicar com a população.

O Instagram® do Conselho Federal de Educação Física <https://www.instagram.com/confef/> é seguido por cerca de 84.600 indivíduos, principalmente profissionais licenciados e bacharéis em Educação Física. Para a análise netnográfica, foram incluídas as publicações a partir do dia 11 de março de 2020, dia em que a OMS decretou a pandemia, até o dia 01 de julho de 2021. Totalizaram-se 96 postagens. Foram excluídas aquelas que não tinham relação com a pandemia, resultando em uma amostra de 53 publicações, compostas por imagens e vídeos.

A análise dos dados se deu pela Análise de Conteúdo, proposta por Bardin (2011), tal como realizada no estudo de Freitas et al. (2020), que investigaram as atividades educativas do Instagram® do Museu da Vida na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), nos primeiros meses da pandemia. Sendo assim, buscando compreender a comunicação feita com o público que segue o perfil do Confef, atentou-se para a quantidade de postagens realizadas em cada dia e mês de pandemia; o conteúdo presente nas publicações; o tipo de postagem realizada (imagem ou vídeo); a quantidade de curtidas, comentários e visualizações (vídeo) de cada postagem.

A pesquisa se classificou como qualitativa que, conforme advoga Minayo (2009), preocupa-se com questões peculiares nas Ciências Sociais, buscando significados, sentidos, crenças, atitudes e valores presentes em um determinado contexto.

Por fim, verificou-se a abordagem sobre “saúde” que o Confef abordou ao realizar as postagens envolvendo a pandemia, a educação física e a saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A primeira categoria analisada diz respeito à frequência das publicações, por mês pandêmico, no período de março de 2020 a julho de 2021. A primeira postagem ocorreu no dia 17 de março de 2020, seis dias após a OMS decretar a pandemia. Publicações anteriores a essa constam com comentários dos seguidores cobrando do Conselho um posicionamento em relação à pandemia.

O mês seguinte, abril de 2020, momento em que o mundo se mobilizava em prol de medidas de combate ao vírus, contou com sete publicações. Contabilizaram-se, também, em dezembro desse mesmo ano, sete publicações. Salienta-se que estes foram os meses com o segundo maior quantitativo de publicações relacionadas à pandemia.

Vale destacar que novembro de 2020 foi o mês com a maior quantidade de publicações relacionadas à pandemia. Isto, pois, o Confef lançou uma websérie intitulada “Com vida”, um conjunto de vídeos de aproximadamente cinco minutos que relatavam como alguns profissionais, de diferentes modalidades esportivas, bem como, professores de Educação Física escolar, haviam adaptado suas atividades durante a pandemia.

As publicações seguiam um padrão de publicação: primeiro, o anúncio do episódio, convidando o público para assistir ao canal no Youtube. Posteriormente, o episódio era postado, na íntegra, no Instagram®. Na Figura 1, pode-se visualizar a quantidade de postagens durante o período investigado.

Figura 1 – Quantidade de postagens do Confef, por meses, durante a pandemia 

Fonte: Autores, 2021.

Ainda na figura 1 – justamente quando o país atingiu o ápice do contágio e mortes decorrentes do vírus – é possível observar um decréscimo no número de postagens. Nesse período, em especial, esperavam-se mais publicações e interações com o público, sobretudo reforçando as medidas de combate ao vírus, quais sejam, o uso de máscaras, o distanciamento social e, quando disponível, a vacinação. Tais medidas, no entanto, parecem ter sido negligenciadas ou mesmo boicotadas por algumas das mais importantes autoridades públicas do país, as quais o Conselho parece apoiar. Melhor compreendendo, na Figura 2, apresenta-se a evolução dos óbitos, no Brasil, decorrentes do coronavírus.

Figura 2 – Óbitos acumulados decorrentes do coronavírus no Brasil 

Fonte: Autores, 2021, Adaptado do Ministério da Saúde (2021). Disponível em: < https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em: 25 jul. 2021. *No endereço eletrônico do Ministério da Saúde, não constam os dados mensais referentes ao período anterior a agosto de 2020.

Websérie “Com vida”

O nome da websérie “Com vida” – é proveniente de um jogo de palavras remetendo à COVID-19. Iniciada em três de novembro de 2020 teve, em sua chamada, a seguinte proposta: “mostrar a importância do exercício físico na sua rotina”. Ao todo, foram seis episódios. Por outro lado, o nome também parece remeter a um grupo de médicos, denominados “médicos pela vida”, que se posicionaram em defesa do governo federal, especialmente reforçando a ideia do uso de determinados medicamentos sem eficácia comprovada contra a COVID-19, como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, para o tratamento precoce2.

O primeiro episódio apresentou a reorganização que a pandemia causou na vida de uma mulher hipertensa. Assim, defendeu a importância do exercício físico como intervenção terapêutica, argumento construído através da exposição de seu histórico de hipertensão arterial. A praticante expôs os motivos que a levaram, mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, a continuar se exercitando, sobretudo pelas recomendações de seu marido, médico. Com a apresentação de uma Doença Crônica não Transmissível (DCNT), o episódio enfatiza o exercício como um remédio para a saúde.

No segundo vídeo da websérie, uma professora de educação física escolar relata como se reinventou no contexto pandêmico. A professora fala da saúde em sua integralidade (aliás, este é o único vídeo em que há a menção de “saúde não somente como ausência de doenças”) e brinca com uma criança. A preocupação da professora em desenvolver as habilidades das crianças, em contexto remoto e com o mesmo “afeto” a que estas estariam submetidas caso a aula fosse presencial, a faz adequar atividades de modo a torná-las acessíveis: através de pregadores e tampas de garrafas.

O terceiro episódio protagoniza a atuação de um profissional da educação física com um praticante de atividades físicas que possui a “síndrome do x frágil” – uma deficiência intelectual de grau leve, que pode acarretar dificuldades no início da fala, ansiedade e hiperatividade. O episódio enfatiza os benefícios fisiológicos provenientes da atividade física como intervenção terapêutica na condição, bem como as melhorias sociais que a prática trouxe ao indivíduo. No episódio, identifica-se, também, um forte apelo emocional na relação entre o professor de educação física e aluno com deficiência, sobretudo, no contexto da condição deste e a prática de atividade física como superação.

No quarto episódio, chama-se atenção à fala da entrevistada – uma idosa. A equiparação do médico ao profissional de educação física e a posterior aprovação indiscriminada às prescrições do primeiro expõem, ainda mais, a problemática da visão biomédica da atividade física. É necessário, diante dos discursos apresentados pelos professores e alunos, trazer à tona as reflexões propostas por Foucalt (2011), ao alertar o modo com que a vida humana, em sua integridade, está sendo medicalizada. Sendo assim, a medicina, e seus conhecimentos, “ditam” o modo como os corpos devem se comportar, entendendo que a origem das enfermidades possuem causas exclusivamente biológicas e passíveis de prevenção. Nos casos demonstrados na websérie, sugerem que a prática de exercícios físicos seja a solução para cada especificidade enfrentada pelos alunos. Guadenzi e Ortega (2012) corroboram com Fucault, reiterando que a medicalização da vida, desde o Século XVIII, atua nas questões sociais, culturais, emocionais, políticas e econômicas dos seres humanos, o que, quase sempre, produz no mercado uma lógica capitalista para a venda de “soluções”. Ademais, percebe-se na fala da entrevistada um distanciamento temporal quanto às medidas de distanciamento social que deixam transparecer uma visão distorcida da realidade pandêmica vivenciada. O restante do episódio reforça a importância do atendimento com um profissional, destacando os benefícios da atividade física aos idosos. A reinvenção do profissional em atendimentos personalizados remotos, incluindo o auxílio aos seus clientes idosos no manejo dos dispositivos eletrônicos, também são elementos figurantes no episódio.

F1: “Encarei a quarentena como uma coisa necessária. E como minha filha é médica, tudo que ela falava, eu fazia; tudo que meus médicos falavam, eu seguia; o Mário falava também para fazer, eu ia fazendo. E, com isso, foi, assim, uma época, que posso dizer que normal, não me causou problema nenhum”.

Através deste discurso, percebe-se uma visão reducionista de toda a problemática do distanciamento social acarretado pela pandemia do COVID-19. Tal fala, aliada a outros elementos do trecho, mostram, também, certo afastamento temporal da realidade pandêmica. Ainda, a “volta à normalidade” da entrevistada corrobora com a narrativa de uma possível flexibilização das medidas de distanciamento social. Por outro lado, estudos mundiais corroboram com a eficácia do isolamento social no combate ao novo coronavírus, ainda que em alguns grupos, como os trabalhadores e microempreendedores, exista a dificuldade de cumprimento de tais medidas devido à falta de políticas assistenciais do Estado (Pasquim et al., 2021). A realidade apesentada nos episódios, como o contato direto com um médico e com um profissional da educação física não representa, certamente, as condições da população brasileira.

No quinto episódio, o que chama atenção é a visão do profissional de educação física, ao mencionar o esporte como dispositivo inclusivo e não apenas voltado às práticas de alto rendimento. Reivindica o potencial da atividade física em tornar as pessoas mais ativas e “curar depressão, ansiedade, estresse” – ponto esse que é reforçado pela aluna. O restante do episódio diz respeito à importância de atendimento com profissionais qualificados e, principalmente, com a reinvenção das aulas da modalidade presencial para o modelo remoto. No episódio, há o reforço das atividades físicas como veiculadoras de “felicidade” e, posteriormente, da qualidade de vida.

F2: “A gente acha que esporte é só alta performance. Não, o esporte, na verdade, ele é inclusivo. Hoje em dia, poder trabalhar com pessoas normais e fazer delas atletas amadores, ou pessoas ativas, curando depressão, curando ansiedade, estresse... eu vejo que o esporte tem um poder muito grande, de trazer felicidade, de dar uma relação melhor com nosso corpo.”

O sexto e último episódio da websérie “com vida” aborda a relação do profissional de educação física com o skatismo. A narrativa do episódio foca nas características do treinamento esportivo nessa modalidade, na essencialidade do profissional de educação física na orientação e preparação dos alunos e, em especial, na reorganização que o distanciamento social causou nas práticas da profissão. Em suma, no episódio, identificam-se: a importância do profissional de educação física na captação e treinamento desportivo na modalidade supracitada, na relação de amizade entre professor e aluno que inerentemente se estabelece nessa prática e, principalmente, em como os profissionais renovaram em relação à prática profissional no contexto de distanciamento social.

Os discursos apresentados na websérie devem ser analisados com cuidado, uma vez que consideram o exercício como um remédio para doenças, reforçando a abordagem biomédica presente em instituições de formações de professores e, consequentemente, nas práticas dos profissionais de Educação Física (Malacarne et al. 2021; Palma 2020; Palma 2017). Isso, consequentemente, promove uma medicalização da vida e da saúde, sendo a determinação social colocada em segundo plano e, por vezes, desconsiderada (Palma, 2003).

Palma (2020) reforça que as abordagens e discursos biomédicos da atividade física e da saúde implicam em um entendimento reducionista da compreensão do processo saúde-doença, compreendendo a partir de três pensamentos comuns: a) a saúde entendida como a ausência de doença; b) uma relação linear entre a causa e o efeito; c) a determinação da doença é de causa exclusivamente biológica. Parece, portanto, que as narrativas sobre os “efeitos terapêuticos”, “cura de depressão, ansiedade” e promessa da “felicidade” ao praticar as atividades físicas, tal como divulgado, comungam com a lógica biomédica.

Além disso, há tempos, Palma et al. (2003), em discussão acerca das bases que constroem as inferências causais presentes em alguns estudos que envolvem a relação entre atividade física e saúde, chamam atenção para questões elementares. Consideram que muito desse discurso biomédico da saúde relacionado à educação física advém da crescente produção literária na área, que busca estreitar cada vez mais as relações de causa e efeito entre a atividade física e a diminuição de riscos relacionados a certas morbidades.

É importante ressaltar que as descobertas científicas que buscam relacionar a prática de atividades físicas e a ação destas em aspectos psicofisiológicos não são necessariamente falsas, mas faz-se necessário um olhar mais crítico sobre estas, sobretudo quando elas figuram o discurso eivado que busca as atrelar invariavelmente às respostas da prática regular de atividades físicas – negligenciando a complexidade do fenômeno (Palma, 2020; Palma et al., 2003).

A websérie, nesse contexto, parece defender, incisivamente, o mercado de trabalho, mas não a vida do trabalhador que oferece serviços na área das atividades físicas, esportivas e correlatas. Os argumentos construídos estão pautados na exposição de motivos que fundamentam a importância da realização de atividades físicas sob a supervisão de um profissional qualificado e registrado no Conselho. Também há a presença de elementos que convidam o profissional à reflexão acerca da reinvenção de suas práticas durante o contexto de distanciamento social causado pela pandemia da COVID-19.

Publicações do Confef

Nas redes sociais, um dos maiores indicadores de adesão, interação e satisfação dos usuários diz respeito à quantidade de curtidas que são atribuídas em um post. A maioria das publicações teve menos de 2.000 curtidas. Entretanto, três obtiveram bastante aprovação dos usuários. A primeira comunicação com os usuários em relação ao coronavírus obteve 9.088 curtidas, no dia 17 de março de 2020. A publicação de maior aceitação teve 18.972 curtidas, tendo o vídeo, também, recorde de visualizações (295.919).

É importante ressaltar que o número de visualizações, comentários e curtidas podem se modificar, uma vez que qualquer usuário pode voltar naquela publicação e interagir com ela. Na Figura 3, apresentam-se as categorias de curtidas das postagens envolvendo a pandemia.

Figura 3 – Quantidade de curtidas por postagens durante a pandemia 

Fonte: Autores, 2021.

Na Tabela 1, têm-se as postagens com maior quantidade de interação dos usuários.

Tabela 1 – Quantidade de curtidas e comentários das sete postagens mais curtidas 

Fonte: Autores, 2021.

Desde o início da pandemia, nos comentários3 das publicações, há cobranças, por parte dos profissionais, sobre a assistência do Conselho durante a crise sanitária, como, por exemplo, na isenção da anuidade profissional. A ação do Conselho, entretanto, foi de prorrogar os prazos para pagamento. Quando decretada a pandemia, em publicações que não tinham associação com ela, os profissionais começaram a cobrar um posicionamento do Conselho:

C1: “E sobre o COVID-19, o que o conselho tem a dizer ? O CRM, CRO já se posicionou..”.

C2: “Vocês não vão se posicionar sobre o COVID-19? @confef”.

C3: “@confef que vergonha, até hoje nenhum comunicado sobre o Covid-19”.

A primeira publicação ocorreu no dia 17/03/2020, e, até o momento, foi a segunda mais curtida e comentada. Uma das contradições entre as primeiras recomendações do Confef aos profissionais foi de “recomendar que grupos de maior risco (idosos e pessoas com doenças crônicas) não fossem aos locais de atividades coletivas, realizando-as em casa”. Entendiam, assim, que as pessoas mais jovens tinham menos chance de contágio. Ainda que a publicação reforçasse medidas como o uso de álcool para higienização das mãos e limpeza dos aparelhos e distanciamento no local, outras medidas essenciais, como o uso de máscara, não foi mencionado. Nos comentários, prevaleceu a cobrança por assistência do Conselho:

C4: “Essa nota demonstra o quanto não estão nem aí para nossa profissão, na hora pegar o boleto anual, OK, fiscalização, zero. Preocupação ZERO. DEVERIA APAGAR ISSO POIS HÁ TEMPO”.

C5: “CREFITO acabou de cancelar a anuidade! CREF deveria fazer o mesmo”.

C6: “E ai @confef O que farão pelos profissionais de educação física nesse momento? Muitos são autônomos e terão seus ganhos diminuídos ou cessados”.

C7: “Queremos a isenção da anuidade tbm.... Não é justo!”.

A postagem referente ao Dia da Saúde também foi uma das mais curtidas no período pandêmico. Em uma arte gráfica com texto escrito “obrigado, profissional de Educação Física”, a legenda fazia um agradecimento aos profissionais da saúde e, quando se referido à categoria da educação física escreveram: “parabenizamos, em especial, aos profissionais de Educação Física que, mesmo à distância, estão se esforçando para levar saúde física e mental à população”. Os principais comentários da publicação, novamente, teciam críticas ao Conselho:

C8: “Só não tem parabens pra vcs!! Que mais uma vez não fizeram nada pela classe. Mas Jajá tem boleto!! Pq pra isso vcs são impecáveis”.

C9: “[...] lutamos sozinhos... agora aparecem pra falar alguma coisa.... deveriam ter vergonha.... nós profissionais de Educação Física somos feras mesmo... somente mérito nosso”.

C10: “Isso inclui os desabilitados, blogueiros, artistas ? Enfim qualquer um que queira aparecer foi o que mais tem nas mídias e não é novidade inclusive para vocês! Que foram bastante marcados. Reconhecimento = respeito e profissão levada a sério e punição aos que exercem a prática ilegal da profissão!”.

Nessa mesma publicação, um usuário demonstra indignação com o perfil do Conselho, alegando que interagem apenas com os comentários referentes a elogios e, às críticas, ignoram:

C10 “Você percebe o conselho que tem, quando a mídia social que representa o conselho FEDERAL da profissão curte todos os comentários elogiando (batendo palmas) e sequer responde às críticas. Esse conselho é uma piada, e sou totalmente a favor de sua extinção, fiscalização já praticamente não existe, pessoas atuando livremente sem ter a devida formação dá para encher um Maracanã e ainda faz fila na porta do estádio. Então pra que precisamos de uma porcaria dessas? Pra cobrar todo ano? Pagar pra ter que trabalhar? Melhor depender da polícia judiciária e do ministério público para fiscalizar e punir esses malandros que exercem a profissão ilegalmente do que dos CREF's [...].

Muitas críticas vêm sendo feito ao Conselho no que diz respeito à fiscalização dos profissionais que atuavam em academias e centros de treinamento. Para a prescrição de treinos, apenas profissionais formados e registrados no Conselho são habilitados (Confef, 2021). Por outro lado, o que se observa, cada vez mais, inclusive nas redes sociais, são pessoas sem formação dando dicas e prescrevendo treinos para que os usuários alcancem determinados objetivos. Parece, assim, que o objetivo de “fiscalizar o exercício das atividades próprias dos Profissionais de Educação Física e das pessoas jurídicas” (Confef, 2021), está deixando a desejar na percepção dos profissionais.

A postagem referente ao dia do trabalho do ano de 2021, bastante curtida, também retrata a percepção de saúde do Conselho, ao agradecer aos profissionais de saúde pela reinvenção durante a pandemia e esforço para “construir uma sociedade mais ativa, saudável e feliz”. Por outro lado, o entendimento de saúde defendido pelo Conselho, bem como, por muitos profissionais da área, não englobam sua totalidade, associando-se, fortemente, às ciências biomédicas e à ideologia neoliberal.

Palma et al. (2021), ao discorrerem sobre neoliberalismo, promoção da saúde e atividade física, refletem que as mensagens relacionadas à promoção da saúde através da atividade física, sob a égide da racionalidade neoliberal, além de serem postas como uma panaceia para a resolução de diversos problemas de saúde e da vida, deslocam o cerne da questão para o âmbito individual. Nesse sentido, a questão social – que trata de aspectos estruturais –, coletiva, seria negligenciada em prol desta racionalidade individualista.

Além disso, tal razão neoliberal parece estar presente nas publicações do Conselho que, ao responsabilizarem os profissionais por sua reinvenção em período pandêmico e não proporem soluções viáveis frente às demandas da classe, em nível assistencial, diante do caos que se vivenciou durante a pandemia, subvertem sua própria fundamentação: a defesa dos interesses dos profissionais de educação física.

Por isso, ainda que se tenham consideráveis avanços, nos últimos anos, sobretudo com a Reforma Sanitária Brasileira, criação do SUS e Conferências de Saúde (especialmente a VIII, Nacional, de 1986) ampliando o entendimento do fenômeno para além do “bem estar físico, mental e social, e não somente ausência de doenças”, hoje, é essencial compreender a complexidade deste fenômeno.

A saúde é, antes de tudo, o resultado da organização social de produção, das desigualdades sociais, das condições de alimentação, de renda, trabalho, de emprego, de alimentação, do meio ambiente, do lazer, da liberdade, e de acesso aos serviços de saúde (Brasil, 1986). Sendo assim, ao ser defendida a essencialidade da atividade física, bem como, da abertura de academias com o argumento de saúde, tais conexos fatores também deveriam ser considerados (Pasquim et al., 2021; Carvalho et al., 2021).

Outra postagem que obteve bastante quantidade de curtidas foi a de 26 de maio de 2020, retratando o fato do presidente da república do Brasil, Excelentíssimo Jair Bolsonaro receber o deputado Evandro Roman, profissional da Educação Física, agradecendo-o por incluir as academias e centros de treinamento como atividades essenciais durante a pandemia. O presidente, conforme publicação, prometeu a criação de projeto de Lei apresentando uma solução à questão da essencialidade desses serviços. O Ofício Confef 270/2020, solicitando ao presidente a inclusão da atividade física como atividade essencial, teve grande repercussão.

Diversas Universidades se manifestaram contra o referido Ofício, incluindo a Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEFD/UFRJ), a Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás (FEFD/UFG) e a Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (Esef/UFPel). As notas, assinadas por professores especialistas, em suma, defenderam o respeito à vida, reforçaram o distanciamento social cientificamente comprovado no combate ao vírus e alertaram aos riscos de contágio em ambientes fechados.

De acordo com a EEFD/UFRJ (2020, p. 1), o estímulo à atividade física em ambiente fechado, durante esse momento, “configura muito mais desapreço à vida, do que preocupação com a saúde”. Ainda, em ambiente aberto (ar livre) pode desencadear um “estímulo” para que outras pessoas as realizem. Desse modo, o meio mais adequado é em local isolado e protegido do vírus (EEFD/UFRJ, 2020).

A Esef/UFPel (2020) reiterou a empatia pelas questões econômicas que os profissionais de Educação Física estão passando. Entretanto, baseando-se na ciência, reforçou a necessidade desses estabelecimentos continuarem, momentaneamente, fechados. Sugeriu para aquelas pessoas que praticavam atividades físicas antes, que continuem os treinos em plataformas digitais, orientados por profissionais. Para aqueles que desejam ingressar, buscarem auxílio em casa, também. Exercícios em locais fechados, como academias, no momento, podem agravar os contágios e, consequentemente, mortes (Esef/UFPel, 2020).

A FEFD/UFG foi bastante objetiva no repúdio à nota, reforçando os argumentos das demais Universidades. Entendendo as dificuldades econômicas pelas quais passam os profissionais de Educação Física durante a pandemia, sugeriram ações mais efetivas e menos danosas à vida por parte das entidades representantes dos profissionais:

“Nesse sentido, defendemos que haja esforços das entidades que representam a profissão para pressionar a tomada de políticas públicas de aporte financeiro para empresas e trabalhadores, direcionando apoio econômico do Estado para pequenas/médias empresas e trabalhadores autônomos, garantindo, inclusive a manutenção de empregos, dada a diminuição da autonomia de trabalho durante a pandemia, limitando assim a pressão de setores econômicos pela reabertura” (Fefd, 2020, disponível em < https://fefd.ufg.br/n/130920-nota-da-fefd-sobre-a-reabertura-dos-espacos-de-atividades-fisicas-no-contexto-da-pandemia-de-covid-19>. Acesso em: 25 jun. 2021).

Pasquim et al. (2021) ao analisarem os discursos em prol da reabertura de academias durante a pandemia à luz da determinação social do processo saúde-doença, perceberam que a concepção hegemônica de exercício físico, relacionada à saúde, foi fortemente utilizada para justificar a reabertura de academias no momento que houve aumento exponencial de pessoas contaminadas e mortas pelo vírus.

Ainda, Santos et al. (2020) redigiram uma carta aberta aos profissionais de Educação Física assinada por mais de 80 professores das principais universidades do país e, além das questões supracitadas, associaram a defesa da reabertura desses estabelecimentos com a carência de disciplinas de epidemiologia e análise crítica de evidências na graduação. A insuficiência de disciplinas de Saúde Coletiva vem sendo discutida em estudos, alertando as universidades a reformas curriculares que aproximem a Educação Física com as demandas sociais da saúde, especialmente o SUS (Malacarne et al., 2021; Oliveira & Gomes, 2020; Neves et al., 2015; Pasquim, 2010).

Nesse sentido, para Carvalho et al. (2021), é importante estimular o aumento dos níveis de atividade física, entretanto, com bastante cuidado, uma vez que o discurso de vida ativa pode se sobressair a tudo e a todos. Assim, evidentemente, existem interesses corporativistas e comerciais que permeiam tais discursos (Pasquim, 2021; Carvalho et al., 2021).

Knuth et al. (2020) ao analisarem os discursos das publicações de instituições de saúdes brasileiras nos primeiros meses de pandemia, no que diz respeito à atividade física, perceberam que incentivavam as pessoas a se manterem ativas, em casa, com uma justificativa de imunidade. Apesar disso, os autores alertam que os discursos fortaleciam uma lógica de mercado e, quase sempre, desconsideravam as questões socioeconômicas e os níveis de desigualdades dos indivíduos.

Um fato chamou bastante atenção nas publicações do Confef: não há menção à campanha de vacinação promovida pela OMS da Saúde e pelo SUS, no Brasil. Contraditório, pois, no dia 21 de fevereiro de 2020, o Confef, através de uma publicação, informa sobre o reconhecimento do profissional de Educação Física no campo da saúde de acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Fato este, que deu o direito ao professor de Educação Física se vacinar no grupo dos profissionais da Saúde não atuantes na linha de frente em muitas cidades brasileiras. Entretanto, nenhuma nota foi transmitida ao público.

De acordo com a OMS (2021), a vacinação em massa da população tem sido considerada a forma mais eficaz de reduzir as internações hospitalares e diminuição dos sintomas graves da COVID-19, em conjunto com o distanciamento social e uso de máscaras pela população.

Massarani et al. (2020) apontam que o movimento pró-vacina difundida por especialistas aumentam os debates sobre a relevância da vacinação nas redes sociais. Ademais, a vacinação é considerada por pesquisadores uma das medidas essenciais no enfrentamento à pandemia. Por outro lado, o Instagram® do Confef não teve iniciativa nesse sentido.

Na pandemia, o Brasil é um dos maiores países no movimento de negação à ciência, sobretudo com o apoio e discursos do Presidente da República na disseminação de notícias falsas relacionadas à COVID-19 (Falcão & Souza, 2021; Caponi, 2020). Um dos primeiros casos de informações equivocadas à população brasileira envolvendo as atividades físicas e esportes ocorreu pelo pronunciamento feito pelo mesmo no dia 24 de março de 2020. Ao se referir à pandemia e minimizar os efeitos do vírus – que já havia matado milhares de pessoas no mundo – disse: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha [...]”.

Destacam-se as notícias sobre o “Kit COVID-19”, referente a medicamentos utilizados na prevenção e tratamento da COVID-19. Entretanto, não há comprovações científicas sobre a eficácia destes medicamentos em pacientes diagnosticados com o novo coronavírus (Falcão & Souza, 2021). Por conta disto, é fundamental o posicionamento de entidades profissionais na divulgação de informações baseadas em evidências científicas sobre saúde de forma relevante e estratégica. Por outro lado, as publicações do Instragram® do Conselho nos pareceram poucas assertivas diante dessas questões.

Segundo Camargo Junior (2020), a proliferação de desinformação, assim como o excesso de informações sobre pesquisas publicadas e a repercussão na mídia criam uma sobrecarga nas pessoas, de modo com que dificultam até mesmo a formulação de políticas públicas sólidas e eficientes. Barcelos et al. (2021) identificaram 321 notícias falsas a respeito da pandemia nos sítios eletrônicos do Ministério da Saúde e da Corporação Globo (G1). As principais categorias dessas notícias tinham teor político, dados epidemiológicos equivocados (casos, óbitos) e medidas de prevenção ineficazes.

É necessário reiterar que as notícias falsas divulgadas pelos meios digitais, especialmente sobre a Covid-19, têm capacidade de incentivar o comportamento das pessoas, sobretudo na adesão às medidas ineficazes de combate ao vírus comprovados pela ciência (Barcelos et al., 2021).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste artigo foi analisar as publicações do Instragram® do Conselho Federal de Educação Física, especialmente durante a pandemia, destacando a ênfase que as publicações davam às medidas de combate ao coronavírus e a abordagem de saúde que foi utilizada para explicar a associação entre a atividade física e a saúde.

Das 96 postagens, referentes ao decreto da pandemia da COVID-19 até o dia 01 de julho de 2021, 53 tinham relação com o coronavírus, estimulando, sobretudo, a reinvenção profissional durante este momento. Um dos diferenciais do Conselho, configurando a maior quantidade de postagens, diz respeito ao lançamento da websérie “Com vida”, palavras formadas a partir do termo COVID. Contudo, ao apresentar exemplos de adaptação dos profissionais da Educação Física e seus alunos durante este momento, reforçaram uma perspectiva biomédica de saúde, desconsiderando a determinação social inerente à compreensão do processo saúde-doença.

Em todas as postagens, houve cobranças, nos comentários, por parte dos profissionais, solicitando do Conselho medidas assistenciais à classe, especialmente a suspensão das anuidades dos anos de 2020 e 2021, fiscalização de pessoas não formadas exercendo a profissão, bem como, Políticas Públicas de auxílio financeiro devido ao fechamento, temporário, dos centros de treinamento e academias de ginástica, locais cientificamente comprovados como de alto risco de contágio, conforme Notas Oficias lançadas pelas principais universidades do Brasil em contrapartida ao Ofício 270/2020 do Confef.

Ainda que as publicações tenham como finalidade incentivar os profissionais a se reinventarem na pandemia, são necessárias reflexões mais aprofundadas sobre as condições socioeconômicas da população brasileira para acesso às atividades físicas, remotas e presenciais, com o acompanhamento profissional. O primeiro semestre de 2021, mais letal da pandemia no país, foi o que teve menor quantidade de postagens durante o período analisado.

Por fim, esperava-se, considerando o discurso do Conselho sobre a essencialidade das atividades físicas no combate ao coronavírus, que o mesmo se mobilizasse em prol da campanha de vacinação para a classe, o que não se verificou em nenhuma postagem.

Referências

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Notas

1A profissão de Educação Física é regulamentada, no Brasil, desde o ano de 1998. No entanto, estava sendo julgada no Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que acusava a existência de um vício na iniciativa do Projeto de Lei (PL), o qual originou o Conselho. Nesse sentido, através de novos trâmites, foi proposto um novo PL, o de nº 2486/2021, cujo objetivo foi o de oferecer segurança jurídica à manutenção e ao funcionamento desse Conselho.

2Segundo reportagens jornalísticas, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instituída para apurar possíveis mal feitos no enfrentamento à Covid-19 pela gestão pública, descobriu que o referido grupo recebeu financiamento de uma empresa farmacêutica fabricante de um desses medicamentos citados. Conferir em < https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/07/17/farmaceutica-bancou-anuncios-defendendo-uso-de-remedios-sem-eficacia-contra-covid.ghtml >.

3Todos os comentários apresentados no trabalho foram transcritos, na íntegra, de acordo como foram digitados e publicados na rede social.

Recibido: 15 de Agosto de 2021; Aprobado: 29 de Septiembre de 2021; : 01 de Octubre de 2021

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