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<publisher-name><![CDATA[Universidad Nacional de Misiones. Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales. Secretaría de Investigación. Programa de Posgrado en Antropología Social.]]></publisher-name>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Brazilian social imagination and our own experience of Brazilianism have been built up, at least since the nineteenth century, around the image and the feeling that Brazil is a dual country. Initially formulated as an opposition between civilization and savageness, this duality has constantly been unfolded in other ones, such as civilized/primitive, modern/traditional, littoral/sertão etc. (Portuguese term for backcountry, backland, or hinterland). In this article, we discuss the opposition littoral/sertão proposing to assume the sertão as a character in the myth that narrates the conquest of civilization by the Brazilian nation.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="3"><b><font face="Arial, Helvetica, sans-serif">DOSSIER</font></b><font face="Arial, Helvetica, sans-serif"> - <b>TERRITORIOS, PROCESOS SOCIO-ESPACIALES Y TERRITORIALIDAD</b></font></font></p>     <p align="left"><font size="3"><b><font face="Arial, Helvetica, sans-serif">Uma narrativa m&iacute;tica do sert&atilde;o</font></b></font></p>     <p align="left"><font size="3"><font face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cust&oacute;dia  Selma Sena<sup>*</sup></b><sup></sup></font></font></p>     <p align="left"><font size="2"><font face="Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>*</sup></font></font><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"> Doutora em antropologia/professora da Faculdade de  Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade Federal de Goi&aacute;s</font> </p>     <p align="left">&nbsp;</p> <hr />     <p align="left"><font size="3"><font face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b><font size="2">Resumo</font></b></font></font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">A imagina&ccedil;&atilde;o social brasileira e a nossa pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia de  brasilidade t&ecirc;m se constru&iacute;do, pelo menos desde o s&eacute;culo XIX, em torno da  imagem e do sentimento de que o Brasil &eacute; um pa&iacute;s. Formulado inicialmente como  uma oposi&ccedil;&atilde;o entre civiliza&ccedil;&atilde;o e barb&aacute;rie, essa dualidade tem sido  constantemente desdobrada em outros binarismos, como civilizado/primitivo,  moderno/tradicional, litoral/sert&atilde;o etc. Neste artigo, discute-se a oposi&ccedil;&atilde;o  litoral/sert&atilde;o, propondo o sert&atilde;o como personagem do mito que narra a conquista  da civiliza&ccedil;&atilde;o pela na&ccedil;&atilde;o brasileira.</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">    <b>Palavras chave:</b> Mito; Na&ccedil;&atilde;o; Sert&atilde;o.</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Abstract</b></font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">Brazilian social imagination and our  own experience of Brazilianism have been built up, at least since the  nineteenth century, around the image and the feeling that Brazil is a dual  country. Initially formulated as an opposition between civilization and  savageness, this duality has constantly been unfolded in other ones, such as  civilized/primitive, modern/traditional, littoral/<i>sert&atilde;o</i> etc. (Portuguese term for backcountry, backland, or  hinterland). In this article, we discuss the opposition littoral/<i>sert&atilde;o</i> proposing to assume the <i>sert&atilde;o</i> as a character in the myth that  narrates the conquest of civilization by the Brazilian nation.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">    <b>Key words:</b> Myth; Nation; Sert&atilde;o.</font></p> <hr />     <p align="left">&nbsp;</p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>UMA NARRATIVA M&Iacute;TICA DO SERT&Atilde;O</b> </font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif">A imagina&ccedil;&atilde;o social brasileira e nossa pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia de  brasilidade tem-se constru&iacute;do, pelo menos desde o s&eacute;culo XIX, em torno da  imagem e do sentimento de que o Brasil &eacute; um pa&iacute;s dual. Formulado inicialmente  como uma oposi&ccedil;&atilde;o entre civiliza&ccedil;&atilde;o e barb&aacute;rie, essa dualidade tem sido  constantemente desdobrada em outros binarismos como civilizado/ primitivo;  litoral/ sert&atilde;o; c&oacute;pia/ aut&ecirc;ntico; moderno/ tradicional etc. O artigo discute a  oposi&ccedil;&atilde;o litoral/sert&atilde;o, propondo o sert&atilde;o como personagem do mito que narra a  conquista da civiliza&ccedil;&atilde;o pela na&ccedil;&atilde;o brasileira. Sem preju&iacute;zo do valor explicativo  dessas dicotomias nos paradigmas desenvolvimentistas, cumpre dizer que, de uma  perspectiva cultural, elas s&atilde;o de pouca ou nenhuma utilidade. Isto porque toda  dualidade &eacute; necessariamente dial&eacute;tica. Portanto n&atilde;o haveria litoral se n&atilde;o  houvesse sert&atilde;o e vice-versa. S&atilde;o realidades imaginadas antag&ocirc;nicas quando de  fato se complementam para produzir o Brasil.<a href="#no"><sup>1</sup></a>Atrav&eacute;s do exame de textos  liter&aacute;rios, dos ensa&iacute;stas, da sociologia e da historiografia proponho uma  reflex&atilde;o sobre a regi&atilde;o imaginada sert&atilde;o, uma das mais poderosas representa&ccedil;&otilde;es  constru&iacute;das pela cultura brasileira. Aqui, a partir do exame dessas obras,  pretendo demonstrar como esses binarismos expressam uma concep&ccedil;&atilde;o espacial  nativa que classifica, no Brasil, os lugares do moderno e os lugares do  tradicional e discutir os significados dessa classifica&ccedil;&atilde;o para uma cartografia  imagin&aacute;ria da na&ccedil;&atilde;o. Neste trabalho proponho uma reflex&atilde;o sobre a regi&atilde;o  imaginada sert&atilde;o, uma das mais poderosas representa&ccedil;&otilde;es constru&iacute;das pela  cultura brasileira. Entrela&ccedil;ando imagens, id&eacute;ias e emo&ccedil;&otilde;es o sert&atilde;o se  constitui como o suporte m&iacute;tico, ageogr&aacute;fico e atemporal, da saga que narra a  conquista da civiliza&ccedil;&atilde;o pela na&ccedil;&atilde;o brasileira em seu devir.<br />       Por condensar uma multiplicidade de  sentidos e por se tratar de um operador de identidade e diferen&ccedil;a - o mito  narra a origem dos brasileiros, como viemos a ser e a sentir como quem &eacute; e, a  saber, quem n&atilde;o &eacute; - o sert&atilde;o &eacute; um objeto elusivo, que &quot;estando em toda parte  n&atilde;o est&aacute; nunca onde est&aacute;&quot; (Rosa, 1967:191). O sert&atilde;o &eacute; uma no&ccedil;&atilde;o artificial que  s&oacute; existe no pensamento dos estudiosos e a que nada de espec&iacute;fico corresponde  exteriormente. O sert&atilde;o &eacute; antes personagem do mito que narra a conquista da  civiliza&ccedil;&atilde;o pela na&ccedil;&atilde;o brasileira em seu devir, como indicado por Suarez, 1998.  E &eacute; por esta mesma raz&atilde;o que o sert&atilde;o &eacute; definido como b&aacute;rbaro e primitivo como  se o fato desta defini&ccedil;&atilde;o implicasse imediatamente na civiliza&ccedil;&atilde;o de outra  parte do Brasil, tradicionalmente o litoral. No Brasil definimos os supostos  sertanejos como primitivos para ao mesmo tempo nos definirmos como civilizado  numa rela&ccedil;&atilde;o imediata de oposi&ccedil;&atilde;o.<br />       Esta divis&atilde;o entre as partes do  Brasil, litoral e sert&atilde;o, n&atilde;o tem nada a ver com a geografia e nunca teve desde  o per&iacute;odo colonial. Trata-se apenas da constru&ccedil;&atilde;o de <i>outro poss&iacute;vel</i>, como no <i>Orientalismo</i> (Said, 2001), em que o outro, sendo uma proje&ccedil;&atilde;o do ocidente, &eacute; pensado pelos  estudiosos ocidentais como sendo irracional, preso a emo&ccedil;&otilde;es incompreens&iacute;veis e  cativo de supersti&ccedil;&otilde;es religiosas que o ocidental supostamente n&atilde;o teria.  Supostamente n&atilde;o teria, pois a religi&atilde;o crist&atilde; n&atilde;o &eacute; computada exatamente para  permitir a compara&ccedil;&atilde;o desfavor&aacute;vel ao &aacute;rabe mul&ccedil;umano. Mas ao contr&aacute;rio do  sert&atilde;o, o Oriente existe e &eacute; cartografado e &eacute; relativamente f&aacute;cil para Said  contestar as teorias dos estudiosos ocidentais sobre ele.<br />     &nbsp;No caso do sert&atilde;o que &eacute; uma  regi&atilde;o imagin&aacute;ria h&aacute; uma grande diferen&ccedil;a. Pois o sert&atilde;o &eacute; uma poderos&iacute;ssima  configura&ccedil;&atilde;o da cultura brasileira. O sert&atilde;o somos n&oacute;s mesmos, os letrados  brasileiros, que enunciamos o sert&atilde;o com abje&ccedil;&atilde;o e desejo. H&aacute; uma parte de n&oacute;s  que deseja o sert&atilde;o como um lugar sem regras e, neste sentido, como n&atilde;o  civilizado. E por esta mesma raz&atilde;o pensamos no sert&atilde;o com abje&ccedil;&atilde;o, com desprezo  por causa mesmo deste nosso desejo. O sert&atilde;o &eacute; pura subjetividade e se coloca,  portanto, para al&eacute;m desta contradi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; por outra raz&atilde;o que a literatura e  as artes, por disporem de recursos est&eacute;ticos capazes de transformar em imagens  o poder afetivo da representa&ccedil;&atilde;o sert&atilde;o, produziram obras que conformam o  imagin&aacute;rio nacional.<br />     Como mito que &eacute; o sert&atilde;o &eacute; mantido num tempo congelado, como se a  din&acirc;mica da hist&oacute;ria n&atilde;o fosse capaz de afet&aacute;-lo. Esta &eacute; uma das  caracter&iacute;sticas do mito. &Eacute; tamb&eacute;m not&aacute;vel a resist&ecirc;ncia subjetiva desenvolvida  por n&oacute;s, brasileiros, para pensar o sert&atilde;o como mito. A viol&ecirc;ncia que &eacute; para  n&oacute;s pensar o sert&atilde;o como mito &eacute; equivalente, sen&atilde;o maior, &agrave; viol&ecirc;ncia que &eacute;  para um crist&atilde;o pensar como mito a cria&ccedil;&atilde;o. Penso que &eacute; maior j&aacute; que &eacute; uma  condi&ccedil;&atilde;o de brasilidade a impossibilidade de se pensar o sert&atilde;o como mito, e em  se tratando de pessoas letradas, n&atilde;o h&aacute; problemas em se colocar em d&uacute;vida o  mito da cria&ccedil;&atilde;o. <br />     Por mito entendemos os relatos sagrados que desempenham papel  important&iacute;ssimo na vida social, como justificativa de ritos, cerim&ocirc;nias ou  regras morais. Os mitos n&atilde;o se referem somente ao passado, j&aacute; que em sua estrutura  eles ligam o passado ao presente e ao futuro. Segundo L&eacute;vi-Strauss, <i>&quot;um mito diz respeito, sempre, a  acontecimentos passados (...). Mas o valor intr&iacute;nseco atribu&iacute;do ao mito prov&eacute;m  de que estes acontecimentos, que decorrem supostamente em um momento do tempo,  formam tamb&eacute;m uma estrutura permanente. Esta se relaciona simultaneamente ao  passado, ao presente e ao futuro (...</i>)&quot; (L&eacute;vi-Strauss, 1975:241).<br />     Atrav&eacute;s desse estudo busco desvelar repert&oacute;rios culturais, mem&oacute;rias  e paisagens soterradas pela narrativa hegem&ocirc;nica e un&iacute;voca da na&ccedil;&atilde;o e sondar  suas possibilidades de resist&ecirc;ncia e de insurg&ecirc;ncia. O sert&atilde;o nunca p&ocirc;de ser  cartografado, creio que por duas raz&otilde;es: a primeira, &eacute; que no imagin&aacute;rio  nacional, o sert&atilde;o &eacute; m&oacute;vel e fluido, ora coincidindo com algumas regi&otilde;es ora  com outras. Nesta cartografia imagin&aacute;ria, alguns espa&ccedil;os s&atilde;o definidos como a  origem ou centro da na&ccedil;&atilde;o, classificando - se como regi&atilde;o os espa&ccedil;os  decadentes, atrasados ou perif&eacute;ricos a serem totalizados pela na&ccedil;&atilde;o. Isto  equivale a dizer que &eacute; a pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de periferia que constitui a regi&atilde;o  como um fen&ocirc;meno (Sena, 2003).<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[Regi&otilde;es decadentes s&atilde;o, principalmente, o Nordeste e Minas Gerais,  pelo prest&iacute;gio econ&ocirc;mico que desfrutaram no per&iacute;odo colonial. Perif&eacute;rica &eacute;,  principalmente, o caso da regi&atilde;o Centro- Oeste, que nunca teve fast&iacute;gio. S&atilde;o,  portanto estas as regi&otilde;es consideradas sert&atilde;o: o norte de Minas Gerais, o  estado do Tocantins, o Nordeste e o Centro- Oeste, com exce&ccedil;&atilde;o de Bras&iacute;lia.<br />     No in&iacute;cio do per&iacute;odo colonial, <i>sert&atilde;o</i> era toda a &aacute;rea do Brasil a 100 metros al&eacute;m da faixa litor&acirc;nea. Nos anos 1950,  em autores como Bastide (1954) e Lambert (1956), por exemplo, o Brasil novo e o  Brasil arcaico coincidem com certas regi&otilde;es brasileiras. Lambert localiza nas  regi&otilde;es Sudeste e Sul o Brasil novo e nas regi&otilde;es Norte, Nordeste e  Centro-Oeste o Brasil arcaico; j&aacute; em Bastide, o Brasil novo localiza-se no Sul  e o arcaico nas regi&otilde;es Norte e Nordeste. Em alguns autores, Minas Gerais &eacute;  parcialmente inclu&iacute;da no Brasil arcaico, particularmente o norte de Minas,  definido como sert&atilde;o, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; imagem fixada no imagin&aacute;rio nacional das minas  das montanhas e do ouro.<br />     Uma das mais c&eacute;lebres vers&otilde;es do  dualismo &agrave; brasileira est&aacute; contida no livro <i>Os  dois Brasis</i> de Jacques Lambert, escrito no final dos anos 1950, pois a&iacute; o  autor procura esgotar a caracteriza&ccedil;&atilde;o do Brasil tradicional e do Brasil urbanizado  ou civilizado, atrav&eacute;s do exame das dimens&otilde;es hist&oacute;rica, econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica,  social e cultural. Para este autor, o Brasil possu&iacute;a uma s&oacute; cultura e uma s&oacute;  nacionalidade, mas dois sistemas distintos de organiza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e social  que n&atilde;o &quot;evolu&iacute;ram ao mesmo ritmo e n&atilde;o atingiram a mesma fase; n&atilde;o est&atilde;o  separados por uma diferen&ccedil;a de natureza, mas por diferen&ccedil;as de idade&quot;.  Representando duas &eacute;pocas de uma mesma civiliza&ccedil;&atilde;o definida por uma l&iacute;ngua, uma  religi&atilde;o e uma hist&oacute;ria comum, o Brasil tradicional caracteriza-se por uma  estrutura social simples e hierarquizada, onde pequenas comunidades mais  isoladas apegam-se ainda a velhas tradi&ccedil;&otilde;es e rotinas, resistindo &agrave;s mudan&ccedil;as e  moderniza&ccedil;&otilde;es. <br />     Se as configura&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas  moderno/tradicional n&atilde;o s&atilde;o estanques, mas fluidas, podemos esperar encontrar o  sert&atilde;o em toda a parte, ainda que obliterado na narrativa civilizadora da  na&ccedil;&atilde;o. At&eacute; o in&iacute;cio do s&eacute;culo vinte, uma parte do Estado de S&atilde;o Paulo era ainda  descrita como &quot;extremo sert&atilde;o&quot;, &quot;desconhecido&quot;, &quot;pouco explorado&quot;, &quot;espa&ccedil;os  selvagens&quot; ou &quot;terrenos ocupados por &iacute;ndios&quot;. A expans&atilde;o da cafeicultura, das  ferrovias, o mapeamento e a nomea&ccedil;&atilde;o dessas &aacute;reas pela Comiss&atilde;o Geogr&aacute;fica  Estadual, seguidas de um per&iacute;odo intenso de urbaniza&ccedil;&atilde;o fez desaparecer o  sert&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o S&atilde;o Paulo, transformando-o no <i>l&oacute;cus</i> da  modernidade no Brasil (Arruda, 2000).<br />     Outro exemplo de deslizamento do  signo sert&atilde;o do centro para as margens do discurso regional &eacute; o caso de Minas  Gerais. Tendo sido classificada como sert&atilde;o desde o per&iacute;odo colonial at&eacute; os  anos quarenta do s&eacute;culo vinte, Minas Gerais, a partir dessa &eacute;poca come&ccedil;a a  reverter o estigma do arca&iacute;smo que marcava sua identidade atrav&eacute;s de  estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas e culturais j&aacute; bem analisadas por Maria Arminda Arruda, na <i>Mitologia da mineiridade</i> (1990).&nbsp;  Resultado do trabalho de ressignifica&ccedil;&atilde;o e atualiza&ccedil;&atilde;o do mito da  mineiridade empreendidos por seus artistas e escritores, intelectuais e  pol&iacute;ticos, generalizou-se, para todo o Estado de Minas Gerais, imagens,  paisagens e mem&oacute;rias selecionadas do repert&oacute;rio das &aacute;reas mineradoras, com suas  montanhas, suas cidades coloniais, suas igrejas barrocas, seus poetas  inconfidentes e sua relativa complexidade social.<br />     Nesse processo de reelabora&ccedil;&atilde;o, o  sert&atilde;o, que coincidia com Minas Gerais, foi sendo empurrado do centro para as  margens da representa&ccedil;&atilde;o Minas Gerais, at&eacute; se transformar numa dupla fronteira:  norte de Minas, &aacute;rea que separa Minas Gerais da Bahia, e alteridade negada de  Minas Gerais.<br />     Como bem observa Costa (2003),  outras &aacute;reas situadas nos limites geogr&aacute;ficos do Estado de Minas Gerais n&atilde;o s&atilde;o  marginalizadas na representa&ccedil;&atilde;o cultural mineira como o norte de Minas, chamado  depreciativamente pelos mineiros de territ&oacute;rio baianeiro para indicar a  ambig&uuml;idade hist&oacute;rica e cultural dessa regi&atilde;o que, at&eacute; o s&eacute;culo dezoito,  pertenceu aos currais da Bahia e que guarda, at&eacute; hoje, formas culturais  entendidas pelos mineiros e reconhecidas pelos norte-mineiros como sertanejas.  Confinado ao norte de Minas, o sert&atilde;o n&atilde;o passa hoje, para os mineiros, de uma  mem&oacute;ria de um tempo passado e de um constrangimento, sem preju&iacute;zo do lugar que  ocupa no imagin&aacute;rio mineiro e nacional a obra liter&aacute;ria <i>Grande Sert&atilde;o:  veredas, </i>de Guimar&atilde;es Rosa. <br />     Minas Gerais est&aacute;, portanto, tentando resolver esta quest&atilde;o atrav&eacute;s  do englobamento do sert&atilde;o pela representa&ccedil;&atilde;o Minas Gerais, estilha&ccedil;ando os  gerais do Grande Sert&atilde;o:<i> veredas</i>, sob  as imagens das montanhas e do ouro. Esta &eacute;  exatamente a &aacute;rea de Minas Gerais, que est&aacute; em processo de separar-se para  constituir o Estado de S&atilde;o Francisco. Neste processo, tanto as elites pol&iacute;ticas  quanto os cientistas e escritores j&aacute; est&atilde;o singularizando o Norte de Minas, por  meio de representa&ccedil;&otilde;es extra&iacute;das da historiografia, da geografia - fauna e  flora - e de outras alegadas diferen&ccedil;as culturais que aproximam o norte -  mineiro da Bahia e do Nordeste, afastando-o de Minas Gerais.<br />     Na sociedade brasileira h&aacute; v&aacute;rios sert&otilde;es, mas ele &eacute; reconhec&iacute;vel  &quot;como uma regi&atilde;o do interior, de cria&ccedil;&atilde;o de gado, des&eacute;rtica, mais ou menos  estacionada num passado que se recorda como santu&aacute;rio ou reserva das tradi&ccedil;&otilde;es  ancestrais, reposit&oacute;rio venerado da linguagem e costumes antigos&quot; (Crist&oacute;v&atilde;o,  F. 2003:45).&nbsp; &Eacute; por isso que a regi&atilde;o  Centro - Oeste, o Nordeste e o Norte de Minas Gerais s&atilde;o considerados sert&atilde;o  pelo pensamento social, enquanto internamente a cada uma dessas regi&otilde;es o  sert&atilde;o &eacute; situado sempre mais al&eacute;m.<br />     &nbsp;Sertanejo &eacute; um personagem da  narrativa mitol&oacute;gica e n&atilde;o constitui um grupo social empiricamente  reconhec&iacute;vel, pois nos v&aacute;rios sert&otilde;es do Brasil na designa&ccedil;&atilde;o sertanejo &eacute; usada  para vaqueiros, camponeses, canoeiros, comunidades de pretos, camponeses sem  terra e inclusive favelados etc. O sert&atilde;o s&atilde;o os pobres da na&ccedil;&atilde;o.<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[Movimento semelhante de deslocamento  do sert&atilde;o para as fronteiras geopol&iacute;ticas de outro Estado est&aacute; vivendo agora a  regi&atilde;o Centro-Oeste, particularmente o Estado de Goi&aacute;s. Escritores, artistas,  intelectuais e pol&iacute;ticos goianos v&ecirc;m trabalhando nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas para  reverter na identidade perif&eacute;rica de Goi&aacute;s na cartografia imagin&aacute;ria da na&ccedil;&atilde;o,  atrav&eacute;s das seguintes estrat&eacute;gias convergentes: <br />     1-Por meio da disputa de dizer a  regi&atilde;o numa linguagem cient&iacute;fica, pretensamente menos ideol&oacute;gica do que a  historiografia oficial, do que a literatura e as artes regionalistas, pois  suportada pelas pesquisas historiogr&aacute;fica e sociol&oacute;gica que privilegiam as  tem&aacute;ticas da modernidade e at&eacute; da p&oacute;s-modernidade e que recebem sua legitima&ccedil;&atilde;o  do campo cient&iacute;fico;<br />     2-Atrav&eacute;s da ressignifica&ccedil;&atilde;o do mito  do sert&atilde;o como espet&aacute;culo e figura da atualidade que traveste o sertanejo de  pe&atilde;o de rodeio na Festa do Pe&atilde;o de Boiadeiro, organizada como uma estrutura  mega-empresarial e transnacional, espetacularizada nos centros urbanos dos  Estados de Minas Gerais, S&atilde;o Paulo, Goi&aacute;s, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso  do Sul e Paran&aacute;. <br />     3- Pelo confinamento do sert&atilde;o ao  Tocantins, antigo norte de Goi&aacute;s, transformado em Estado em 1988, quando passou  a fazer parte da regi&atilde;o Norte. Desde os momentos iniciais das gest&otilde;es para a  cria&ccedil;&atilde;o do Estado do Tocantins, as justificativas elaboradas nos discursos  pol&iacute;ticos para a divis&atilde;o estadual foram: a) os impedimentos ao desenvolvimento  local do Tocantins, decorrentes da distribui&ccedil;&atilde;o desigual de recursos pelo  Estado de Goi&aacute;s e b) a singularidade cultural e hist&oacute;rica do Tocantins em  rela&ccedil;&atilde;o a Goi&aacute;s.<br />     Tomando a diferen&ccedil;a como um dado  essencial que inclu&iacute;a, desde a &quot;origem racial&quot; das levas de migrantes que  ocuparam os Tocantins vindos do Nordeste - ao contr&aacute;rio do Estado de Goi&aacute;s cuja  migra&ccedil;&atilde;o inicial teria sido, conforme reza a lenda goiana, principalmente de  mineiros e paulistas -; at&eacute; as peculiaridades fenot&iacute;picas e alimentares, os  h&aacute;bitos e as atividades sertanejas. Tratava-se, no entender dos pol&iacute;ticos,  apenas de se reconhecer, no plano administrativo, a exist&ecirc;ncia de fato da  singularidade tocantinense anterior &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do estado do Tocantins.<br />     Mas como as identidades s&atilde;o  processuais e conjunturais, ainda quando acreditadas essenciais e fixadas, as  estrat&eacute;gias culturais do Tocantins est&atilde;o nesse momento voltadas para a  constitui&ccedil;&atilde;o de uma comunidade imaginada distinta e oposta a dos goianos.  Enquanto isso, os goianos est&atilde;o realocando as caracter&iacute;sticas negativas do  sert&atilde;o - o isolamento, os &iacute;ndios, os jagun&ccedil;os, os coron&eacute;is, o atraso - para  al&eacute;m de suas fronteiras estaduais, constituindo o Tocantins imediatamente numa  alteridade da alteridade. Digo alteridade da alteridade, porque a regi&atilde;o  centro-oeste foi sempre pensada como sert&atilde;o, isto &eacute;, como alteridade da na&ccedil;&atilde;o  brasileira, por seu incompleto englobamento.&nbsp; <br />     Para o estado de Goi&aacute;s, no entanto, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; mais complicada do  que o caso de Minas Gerais, j&aacute; o estado inteiro &eacute; pensado como sert&atilde;o, muito  embora para o pensamento goiano nativo, o sert&atilde;o n&atilde;o coincida com o Estado, mas  com algumas &aacute;reas dentro dele. Esta classifica&ccedil;&atilde;o, por ser regionalista e  local, n&atilde;o possui apelo no pensamento brasileiro formulado pela &quot;na&ccedil;&atilde;o&quot;, o que  revela como o processo de constru&ccedil;&atilde;o de uma regi&atilde;o, requer o entrela&ccedil;amento  constante de concep&ccedil;&otilde;es internas e externas para ter efic&aacute;cia. <br />     Recentemente assiste-se a uma tentativa - de pol&iacute;ticos e  intelectuais locais- de deslocamento do sert&atilde;o de Goi&aacute;s para o estado do  Tocantins, como j&aacute; foi dito. O estado do  Tocantins, cujo territ&oacute;rio coincide com o do antigo Norte de Goi&aacute;s, &eacute; definido  pelo pensamento nativo como o sert&atilde;o por excel&ecirc;ncia do estado de Goi&aacute;s, pelas  raz&otilde;es economicistas e aus&ecirc;ncias usuais: inclem&ecirc;ncia do sol, terra impr&oacute;pria  para o cultivo, baixa produtividade, aus&ecirc;ncia de centros urbanos, precariedade  do processo civilizat&oacute;rio. <br />     No entanto, o Tocantins encontra-se neste momento redefinindo no  Estado, os lugares sert&atilde;o o que significa dizer que estes lugares s&atilde;o os mais  distantes da capital, os de mais baixa densidade populacional e de cria&ccedil;&atilde;o de  gado e planta&ccedil;&atilde;o de lavouras, em moldes n&atilde;o capitalistas. &Eacute; assim que se  processa o deslocamento do sert&atilde;o. O sert&atilde;o &eacute; aonde a civiliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o chegou  ainda.<br />     Quanto ao Nordeste, apesar das tentativas de Albuquerque Jr. de  dissolver esta inven&ccedil;&atilde;o, continua sendo sert&atilde;o.&nbsp;  O processo de constru&ccedil;&atilde;o de uma regi&atilde;o &eacute; atravessado por rela&ccedil;&otilde;es de  poder e de saber que nos conformam como nordestinos, goianos, mato-grossenses.  N&atilde;o h&aacute; neste sentido diferen&ccedil;a entre o externo e o interno, como observa com  propriedade o pr&oacute;prio autor: <br />     ]]></body>
<body><![CDATA[  &quot;<i>O  discurso regionalista n&atilde;o &eacute; emitido a partir de uma regi&atilde;o exterior a si, &eacute; na  sua pr&oacute;pria locu&ccedil;&atilde;o que esta regi&atilde;o &eacute; encenada, produzida e pressuposta. Ela &eacute;  parte da topografia do discurso, de sua institui&ccedil;&atilde;o. Todo discurso precisa  medir e demarcar um espa&ccedil;o de onde se anuncia. Antes de inventar o  regionalismo, as regi&otilde;es s&atilde;o produtos deste discurso&quot;</i> (Albuquerque, 2001:23).<br />       A segunda das raz&otilde;es pela qual o sert&atilde;o n&atilde;o p&ocirc;de ser cartografado &eacute;,  a meu ver, porque o sert&atilde;o &eacute; componente do mito que narra a conquista da  civiliza&ccedil;&atilde;o pela na&ccedil;&atilde;o brasileira, como indicado por Suarez (1998). A autora,  por estrangeira, foi a primeira a fazer a sugest&atilde;o de que o sert&atilde;o &eacute; parte do  mito que narra a conquista da civiliza&ccedil;&atilde;o pela na&ccedil;&atilde;o brasileira e tamb&eacute;m  registrar a dificuldade que os brasileiros temos de estranhar o sert&atilde;o, j&aacute; que  o sert&atilde;o configura uma experi&ecirc;ncia muito pr&oacute;xima de n&oacute;s.<br />       Amado (1995), em um artigo comparativo entre a conquista do Oeste no  Brasil e nos Estados Unidos, trata o sert&atilde;o como mito-hist&oacute;ria, isto &eacute;, como a  apropria&ccedil;&atilde;o pela historiografia do mito gerado pela conquista do sert&atilde;o.<br />     Para tratar o sert&atilde;o como personagem do mito civilizat&oacute;rio  brasileiro, vou considerar, seguindo a recomenda&ccedil;&atilde;o de L&eacute;vi-Strauss (1975), o  conjunto de todas suas vers&otilde;es, sem buscar a origem do mito e sem privilegiar as  vers&otilde;es mais completas.&nbsp; Constitui uma  grande novidade o tratamento do sert&atilde;o como mito. Com exce&ccedil;&atilde;o do artigo de  Suarez, 1998 e de um mais recente de Fernando Crist&oacute;v&atilde;o de 2003, n&atilde;o h&aacute; outros.  O mito se divide em quatro unidades constitutivas por mim designadas, a partir  do pensamento social, em <i>paisagem,  fronteira, viol&ecirc;ncia, e</i> <i>sociabilidade.</i></font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PAISAGEM</b></font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif">Penso com Schama, 1996 e particularmente com Silveira, 2009, que o  termo paisagem cultural &eacute; uma redund&acirc;ncia j&aacute; que n&atilde;o existe paisagem sen&atilde;o  aquela significada pela cultura. &Eacute; a cultura que prov&ecirc; nossa significa&ccedil;&atilde;o do  mundo e, portanto o sentido dos nossos valores e de nossas cren&ccedil;as. Trata-se no  caso da paisagem, sobretudo de uma incorpora&ccedil;&atilde;o dos sentimentos. &quot;A percep&ccedil;&atilde;o,  neste caso, considera a afetividade que emana do olhar em rela&ccedil;&atilde;o a uma  paisagem&quot;. (Silveira, 2009:77). <br />       A paisagem afetiva e cen&aacute;rio do mito &eacute; agreste, seca, long&iacute;nqua, in&oacute;spita.<a href="#no"><sup>2</sup></a> O sert&atilde;o &eacute; um deserto que  demanda travessia. A inclem&ecirc;ncia do sol e a aridez podem matar homens e  animais. No mito do sert&atilde;o, sert&atilde;o e deserto se equivalem: &quot;At&eacute; mesmo as no&ccedil;&otilde;es  de sert&atilde;o e deserto, que s&atilde;o semelhantes em suas origens, mas falam de  paisagens diferentes, poderiam servir de paralelo a estes dois espa&ccedil;os t&atilde;o  d&iacute;spares e t&atilde;o pr&oacute;ximos&quot; (Sena Filho, 2004:47). <br />       Segundo Mendon&ccedil;a Teles, sert&atilde;o &eacute; um dos mais importantes signos de  nossa rela&ccedil;&atilde;o com o colonizador e jamais perdeu este car&aacute;ter. A palavra sert&atilde;o  n&atilde;o incorpora a perspectiva do colonizado, mas o dito do colonizador em rela&ccedil;&atilde;o  a regi&otilde;es in&oacute;spitas, lugar onde n&atilde;o se queria estar. Para o <i>autor sertum</i> &eacute; o que sai da fileira, o  que sai da ordem e <i>desertanum</i> o lugar  desconhecido para onde ia o desertor<a href="#no"><sup>3</sup></a>.<br />       Alguns autores t&ecirc;m chamado a aten&ccedil;&atilde;o para as semelhan&ccedil;as entre o  deserto m&iacute;tico do Sinai e sua travessia e o deserto  de Riobaldo, personagem central de <i>Grande  Sert&atilde;o: veredas</i> (Martins,  1968, Flusser, 1969). Nestes &quot;sert&otilde;es&quot;, o deserto e o  sert&atilde;o representam o espa&ccedil;o que o &quot;homem humano&quot; tem que atravessar sob  constantes interven&ccedil;&otilde;es e prova&ccedil;&otilde;es, tanto de Deus quanto do Diabo.&nbsp; <br />       <i>&quot;A  travessia de um deserto ou de um sert&atilde;o &eacute; uma das mais poderosas e recorrentes  representa&ccedil;&otilde;es arquet&iacute;picas da humanidade, como atestam estes dois cl&aacute;ssicos da  literatura, a saber, o &Ecirc;xodo e o Grande Sert&atilde;o: veredas. Em ambos os textos o mesmo deserto, o mesmo &ecirc;xodo, a  mesma travessia, a mesma epifania como mito fundante, o mesmo pacto  sobrenatural</i>&quot; (Sena Filho, 2004:48).<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[  Em ambos os mitos a travessia tem como resultado  a terra prometida: no mito civilizat&oacute;rio brasileiro a terra prometida &eacute; a na&ccedil;&atilde;o  moderna e civilizada. O mito do sert&atilde;o ao inscrever esta paisagem diz 'aqui &eacute; o  come&ccedil;o do Brasil e seu passado, aqui o sert&atilde;o est&aacute; suspenso da passagem do  tempo'. Para L&eacute;vi-Strauss, os mitos n&atilde;o s&atilde;o fantasmagorias, mas narrativas t&atilde;o  exigentes quanto &agrave;s produzidas pelo pensamento positivo. A diferen&ccedil;a se deve  menos &quot;&agrave; qualidade das opera&ccedil;&otilde;es que &agrave; natureza das coisas &agrave;s quais se dirigem  essas opera&ccedil;&otilde;es&quot; (1978). A contradi&ccedil;&atilde;o entre tempo revers&iacute;vel e tempo n&atilde;o  revers&iacute;vel &eacute;, de fato para autor, o que singulariza o mito frente a outras  narrativas, pois esta contradi&ccedil;&atilde;o indica que o mito pertence simultaneamente &agrave; <b>l&iacute;ngua</b>, dom&iacute;nio de um tempo revers&iacute;vel  e &agrave;<b> palavra </b>dom&iacute;nio de um tempo  irrevers&iacute;vel.<br />       No sert&atilde;o o tempo &eacute; lento e cont&iacute;nuo, da&iacute; a persist&ecirc;ncia de  repert&oacute;rios culturais arcaizantes que o isolamento conserva e reproduz como  autenticidade. Na na&ccedil;&atilde;o o tempo &eacute; quente e veloz, propondo incessantes  mudan&ccedil;as. &Eacute; por isto que no Brasil a na&ccedil;&atilde;o controla a din&acirc;mica do processo  hist&oacute;rico e com este poder, controla a produ&ccedil;&atilde;o do saber sobre o Brasil. Uma  das maneiras com que tem sido &quot;olhado o sert&atilde;o &eacute; a de situ&aacute;-lo fora de nosso  tempo, numa &eacute;poca sem car&ecirc;ncias ou conflitos, nem com deus nem com os homens,  descrevendo-a em fun&ccedil;&atilde;o das vertentes cl&aacute;ssicas do t&oacute;pico [...]: a paz, a  abund&acirc;ncia, a justi&ccedil;a, devidamente adaptadas &agrave; circunst&acirc;ncia brasileira&quot;  (Crist&oacute;v&atilde;o, F., 2004:47-48).<br />       A diferen&ccedil;a entre a sociedade sertaneja e a na&ccedil;&atilde;o moderna poderia  ser mais bem esclarecida, a partir das no&ccedil;&otilde;es de L&eacute;vi-Strauss de sociedades  frias e quentes: as primeiras procurando, atrav&eacute;s de suas institui&ccedil;&otilde;es anular o  efeito dos fatores hist&oacute;ricos de modo a garantir seu equil&iacute;brio e continuidade;  e as segundas, &quot;interiorizando resolutamente o movimento progressivo hist&oacute;rico,  para de ele fazer o motor de seu desenvolvimento&quot;. &Eacute; preciso n&atilde;o subestimar,  nas sociedades frias, o poder da escolha, consciente ou inconsciente, de se  subtrair ao jugo da hist&oacute;ria. Estas sociedades t&ecirc;m tanto institui&ccedil;&otilde;es  destinadas a retardar o devir quanto justificativas congruentes como '&eacute; assim  que aprendemos com nossos antepassados' (L&eacute;vi-Strauss, 1970:268).<br />       O sert&atilde;o nunca foi um p&oacute;lo de uma biparti&ccedil;&atilde;o apenas geogr&aacute;fica.  Desde o tempo da col&ocirc;nia, o sert&atilde;o &eacute; o <i>outro</i> concebido para se opor ao processo de civiliza&ccedil;&atilde;o que o conquistador  representa, entendendo-se em contraponto, o sert&atilde;o como mais pr&oacute;ximo da  natureza. Como <i>outro</i> o sert&atilde;o  assombra a na&ccedil;&atilde;o demonstrando o artif&iacute;cio da civiliza&ccedil;&atilde;o brasileira, seu  car&aacute;ter posti&ccedil;o e inaut&ecirc;ntico. Aqui podemos apreender o sert&atilde;o como uma figura  da atualidade, j&aacute; que a &quot;reivindica&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o &agrave; modernidade como forma  aut&ocirc;noma ou soberana de racionalidade pol&iacute;tica &eacute; particularmente question&aacute;vel&quot;,  j&aacute; que as fronteiras da modernidade se encenam no espa&ccedil;o na&ccedil;&atilde;o como temporalidades  ambivalentes (Bhabha, 1998:202). Isto porque a na&ccedil;&atilde;o se representa como um  tempo vazio e homog&ecirc;neo, incapaz, portanto, de integrar suas pr&oacute;prias  disjun&ccedil;&otilde;es internas de sentidos ou o que seria o tempo heterog&ecirc;neo da na&ccedil;&atilde;o.<br />       A representa&ccedil;&atilde;o de que a modernidade e a tradi&ccedil;&atilde;o s&atilde;o espacialmente  delimitadas - o litoral seria o lugar da modernidade e o sert&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o - e  de que possuem uma ess&ecirc;ncia reconhec&iacute;vel e fixada de tal modo permeiam nosso  imagin&aacute;rio que qualquer confus&atilde;o entre essas configura&ccedil;&otilde;es tende a provocar  perplexidade e a produzir interpreta&ccedil;&otilde;es conflitantes. Gilmar Arruda relata o  seguinte fato: referindo-se a pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas em S&atilde;o Paulo durante as  elei&ccedil;&otilde;es de 1996, um grande jornal paulista publicou a seguinte manchete: &quot;No  vale tudo eleitoral, candidatos transformam S&atilde;o Paulo em &quot;sert&atilde;o&quot;, pela  exibi&ccedil;&atilde;o de atributos e caracter&iacute;sticas t&iacute;picas dos &quot;grot&otilde;es do Norte e  Nordeste&quot; (Gilmar Arruda, 2000:13). Como uma cidade moderna como S&atilde;o Paulo pode  reproduzir comportamentos pol&iacute;ticos tradicionais - como a manipula&ccedil;&atilde;o e o  clientelismo - pensados como confinados aos sert&otilde;es e grot&otilde;es do Brasil?<br />       Similarmente, quando oferecidos no mercado simb&oacute;lico os produtos  culturais das regi&otilde;es - a arte, a literatura, a m&uacute;sica, e mesmo a pesquisa e os  estudos cient&iacute;ficos - independentemente de seu valor intr&iacute;nseco, eles s&atilde;o  classificados como regionalistas o que n&atilde;o &eacute; uma descri&ccedil;&atilde;o neutra, mas  negativa. Inclusive a classifica&ccedil;&atilde;o das obras liter&aacute;rias como regionalistas ou  sertanistas, n&atilde;o se referem &agrave; forma, mas ao conte&uacute;do narrativo.&nbsp; As classifica&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o, em todas as  sociedades, formas de ordena&ccedil;&atilde;o, de delimita&ccedil;&atilde;o, de inclus&atilde;o e de exclus&atilde;o  empreendida por grupos que det&ecirc;m o privil&eacute;gio de classificar, isto &eacute;, de  atribuir valores diferentes aos grupos e coisas assim classificados.<br />       Por outro lado, tanto atrav&eacute;s de reclassifica&ccedil;&otilde;es quanto atrav&eacute;s do  deslocamento concreto dos artistas e intelectuais para o centro moderno da  na&ccedil;&atilde;o, os artistas, m&uacute;sicos e pensadores regionais podem ser nacionalizados e  essa nacionaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; percebida e socialmente valorizada como um penhor de  sucesso. Para aqueles que permanecem nas regi&otilde;es, esses podem tanto alinhar-se  aos defensores do tradicionalismo intransigentes quanto tornarem-se,  internamente &agrave; regi&atilde;o, reconhecidos como representantes locais de uma  modernidade que &eacute; lida, externamente &agrave; regi&atilde;o, como regionalismo/  tradicionalismo.<br />       Sobre a paisagem &eacute; necess&aacute;rio lembrar ainda que o sert&atilde;o &eacute; um lugar  de encantamento, de entidades sobrenaturais como o saci, o lobisomem, a mula  sem cabe&ccedil;a. Lugar de almas penadas que vagueiam e de santos que fogem das  igrejas. O sert&atilde;o n&atilde;o foi desencantado pela modernidade, mas o ser&aacute; quando  virar fronteira.<br />     &nbsp;As imagens de viajante e  deserto pretendem ainda, em rela&ccedil;&atilde;o ao sert&atilde;o, dizer sobre a condi&ccedil;&atilde;o humana,  de modo simb&oacute;lico. E diz tamb&eacute;m sobre a liberdade e a dramaticidade que d&atilde;o  significado &agrave; travessia. <br />       <i>&quot;Deserto &eacute; um lugar &aacute;rido,  mais freq&uuml;entado pelos animais selvagens que pelos homens, povoado de  esp&iacute;ritos, dem&ocirc;nios, assombra&ccedil;&otilde;es&quot;. Lugar de ref&uacute;gio para expia&ccedil;&atilde;o de crimes e  pecados, de medita&ccedil;&atilde;o sobre o sentido da vida e do sobrenatural. Por isso a  travessia do deserto, tanto no sentido literal como metaf&oacute;rico, d&aacute; origem, como  na alquimia, a transforma&ccedil;&otilde;es na personalidade daqueles que se aventuram a  caminhar nas suas veredas ou a habitar as suas grutas''</i> (Crist&oacute;v&atilde;o, F. 2003:50-51).<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[  A no&ccedil;&atilde;o de isolamento &eacute; fundamental na descri&ccedil;&atilde;o da paisagem  cultural do sert&atilde;o. Mas esta no&ccedil;&atilde;o n&atilde;o diz respeito apenas &agrave; dist&acirc;ncia  geogr&aacute;fica, no sentido de longe dos centros urbanos. Ela diz tamb&eacute;m respeito ao  tempo hist&oacute;rico, como se o sert&atilde;o estivesse localizado num per&iacute;odo anterior do  tempo. Conforme Euclides da Cunha, uma &quot;sociedade velha, uma sociedade  retardat&aacute;ria, arcaica, galvanizada e morta&quot;, onde se encontraria para surpresa  do autor, o cerne de nossa nacionalidade nascente (1963:172). <br />       Al&eacute;m de um tempo congelado, o sert&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m pensado como uma forma  de organiza&ccedil;&atilde;o social e um lugar concreto. Com este &uacute;ltimo sentido o sert&atilde;o  compreenderia, no Brasil, uma superf&iacute;cie de 2,5 milh&otilde;es de quil&ocirc;metros  quadrados que integrava o interior do estado de S&atilde;o Paulo, passando por Minas  Gerais, Goi&aacute;s e Bahia at&eacute; Pernambuco, Piau&iacute; e Cear&aacute; e no sentido Leste-Oeste,  desde a faixa agreste atr&aacute;s da Mata Atl&acirc;ntica at&eacute; Mato Grosso adentro (Bolle,  2004).<br />       No imagin&aacute;rio nacional, o sert&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; uma forma de organiza&ccedil;&atilde;o  social e de cultura: a sociedade tradicional sertaneja, organizada em torno das  atividades de plantio e lida com o gado, onde a vida social &eacute; orientada pelas  rela&ccedil;&otilde;es pessoais de compadrio, de favor, de prote&ccedil;&atilde;o e de patronagem; cen&aacute;rio  da viol&ecirc;ncia dos coron&eacute;is e dos jagun&ccedil;os, dos movimentos messi&acirc;nicos e  milenaristas, das romarias e das festas populares e folcl&oacute;ricas. Tamb&eacute;m &eacute;  dist&acirc;ncia da civiliza&ccedil;&atilde;o enquanto consci&ecirc;ncia que o ocidente tem de ser  superior (Elias, 1994). Tal como as sociedades colonizadas, o sert&atilde;o tem que  ser derrotado pelas camadas sucessivas de civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FRONTEIRA</b></font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; necess&aacute;rio lembrar aqui, a import&acirc;ncia ideol&oacute;gica da grandeza da  natureza entendida como espa&ccedil;o e territ&oacute;rio para o processo de constru&ccedil;&atilde;o da  na&ccedil;&atilde;o, tanto para entender a concep&ccedil;&atilde;o brasileira de fronteira quanto para se  entender um desdobramento do mito do sert&atilde;o, que &eacute; o bandeirantismo.<br />       A grandeza do territ&oacute;rio e a consci&ecirc;ncia da territorialidade  serviram como fator de integra&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que n&atilde;o possu&iacute;amos uma hist&oacute;ria profunda.  Da&iacute; a persist&ecirc;ncia justificada do ufanismo, ideologia fundada na louva&ccedil;&atilde;o da  grandeza da natureza, entre n&oacute;s.<br />       No pensamento social o sert&atilde;o n&atilde;o &eacute; representado apenas de modo  negativo. O sert&atilde;o &eacute; representado ao mesmo tempo como atrasado e como possuidor  de uma brasilidade particular. Penso que isto acontece porque sendo o litoral  definido como o lugar da mudan&ccedil;a e da novidade e o sert&atilde;o como o lugar do  isolamento e da tradi&ccedil;&atilde;o, e sendo o sentimento de brasilidade definido como  fora do tempo e da hist&oacute;ria, que outro lugar poderia ser possuidor de uma  brasilidade espec&iacute;fica sen&atilde;o o sert&atilde;o? <br />       Do mesmo modo acredito que por a&iacute; &eacute; poss&iacute;vel que o sert&atilde;o, por estar  situado noutro mundo - o mundo m&iacute;tico - possa falar &agrave; na&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m de outro  lugar que n&atilde;o o da modernidade capitalista. E tamb&eacute;m n&atilde;o do lugar da tradi&ccedil;&atilde;o  concebida como substantiva e fixada, sen&atilde;o de um lugar da diferen&ccedil;a que aporta,  utopicamente, outros valores e perspectivas.<br />       Amado (1995), ao interpretar o sert&atilde;o como mito-hist&oacute;ria descr&ecirc; da  possibilidade de que o sert&atilde;o possa aportar outros valores e perspectivas. Mas  creio que de modo ag&ocirc;nico, o sert&atilde;o, por estar situado &agrave;s margens do discurso  nacional, pode propor valores e perspectivas que n&atilde;o os da modernidade.<br />       No pensamento social o sert&atilde;o &eacute; a fronteira por excel&ecirc;ncia e se  vincula deste modo &agrave; p&aacute;tria geogr&aacute;fica como possibilidade de expans&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o  atrav&eacute;s da incorpora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e ocupa&ccedil;&atilde;o de terras, ou da ocupa&ccedil;&atilde;o dos  &quot;espa&ccedil;os vazios do sert&atilde;o&quot;. &Eacute; neste sentido que o movimento das bandeiras se  vincula ao mito do sert&atilde;o como seu desdobramento j&aacute; que o bandeirantismo  &quot;constitui a principal experi&ecirc;ncia de fronteira na hist&oacute;ria brasileira&quot;  (Oliveira, 2000).<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[  Os espa&ccedil;os vazios do sert&atilde;o dizem respeito a pouca densidade  populacional, ao isolamento, &agrave; aus&ecirc;ncia de cidades e de terras cultivadas.  Tamb&eacute;m &eacute; pensado como lugar de pessoas fortes e acostumadas a lidar com uma  natureza hostil. &Eacute; por isto que o sertanejo &eacute; o suporte de uma brasilidade  espec&iacute;fica, j&aacute; que ele metaforiza os brasileiros na luta cont&iacute;nua contra uma  natureza grandiosa e tr&aacute;gica, da qual a ideologia do ufanismo &eacute; um exemplo  editado. &Eacute; a destreza do sertanejo em sua rela&ccedil;&atilde;o com uma natureza hostil,  destreza auxiliada por sua proximidade com esta mesma natureza, que o prop&otilde;e  como s&iacute;mbolo de nacionalidade.<br />       O sert&atilde;o &eacute; a origem m&iacute;tica do Brasil. O sert&atilde;o &eacute; pensando tamb&eacute;m  como produtor de uma brasilidade espec&iacute;fica, pois a&iacute; teria se originado a  &quot;ra&ccedil;a&quot; brasileira, miscigenada - mameluco/mulato/cafuzo - como manda o figurino  nacional. &Eacute; desnecess&aacute;rio relembrar aqui, por conhecido, como a miscigena&ccedil;&atilde;o  das tr&ecirc;s ra&ccedil;as &eacute; importante na forma&ccedil;&atilde;o da identidade nacional. Aqui n&atilde;o se  trata da mistura de culturas, mas da resultante biol&oacute;gica do hibridismo das  ra&ccedil;as abor&iacute;gene, branca e negra.<br />       N&atilde;o h&aacute; consenso sobre o sert&atilde;o: ora ele &eacute; positivo, l&oacute;cus da  brasilidade ora &eacute; negativo e definido por aus&ecirc;ncias: de urbaniza&ccedil;&atilde;o, de  civiliza&ccedil;&atilde;o. No pensamento social brasileiro, o sert&atilde;o &eacute; a fronteira por  excel&ecirc;ncia desde o inicio do per&iacute;odo colonial. Quer dizer que outro espa&ccedil;o pode  ter sido assim designado - a selva, por exemplo - mas o sert&atilde;o se configura  como uma fronteira paradigm&aacute;tica no sentido de que se vincula &quot;a uma poderosa  tradi&ccedil;&atilde;o de opini&otilde;es sobre o sert&atilde;o como um problema para a nacionalidade&quot;,  cuja solu&ccedil;&atilde;o seria exatamente sua incorpora&ccedil;&atilde;o como fronteira (Vidal e Souza,  1997:133).<br />       No pensamento social o sert&atilde;o &eacute; pensado como fronteira interna e  valorizado como tal - desse modo n&atilde;o teria o Brasil que entrar em guerra com  seus vizinhos, j&aacute; que teria o sert&atilde;o como fronteira interna, para expans&atilde;o da  p&aacute;tria geogr&aacute;fica. Sobre o sert&atilde;o, portanto v&aacute;rias frentes de expans&atilde;o e de  civiliza&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;aram sucessivamente em distintos per&iacute;odos hist&oacute;ricos:  pecu&aacute;ria, seringueiros, madeireiros e mais contemporaneamente as grandes  entradas do capital, como nos anos 1930 em Goi&aacute;s. <br />       Apesar disto, no Brasil, fronteira diz primeiramente respeito aos  limites entre pa&iacute;ses e s&oacute; secundariamente designa o movimento de coloniza&ccedil;&atilde;o  interna. Por esta raz&atilde;o n&oacute;s nunca produzimos uma no&ccedil;&atilde;o potente de fronteira  como os Estados Unidos. Temos a no&ccedil;&atilde;o de bandeirantismo, que &eacute; local e  subordinada &agrave; narrativa da nacionalidade brasileira, n&atilde;o tendo nem de perto a  autonomia e o poder da no&ccedil;&atilde;o norte-americana de fronteira.<br />       Os estudiosos brasileiros desde o s&eacute;culo XX comparam as fronteiras  destes dois pa&iacute;ses de dimens&otilde;es continentais, suas semelhan&ccedil;as e dessemelhan&ccedil;as.  A primeira mais notada &eacute; a diferen&ccedil;a entre o bandeirante e o pioneiro, j&aacute; que o  primeiro seria errante o segundo fixado. Por isto tamb&eacute;m o sert&atilde;o &eacute; pensado  como o lugar da err&acirc;ncia: do bandeirante, dos beatos, dos jagun&ccedil;os, dos  migrantes.<br />       Outro contraste &eacute; relativo ao pr&oacute;prio processo de coloniza&ccedil;&atilde;o, que  nos EUA teria sido constante no tempo e no espa&ccedil;o - come&ccedil;ou e terminou no  s&eacute;culo XIX, desenhando uma linha cont&iacute;nua de expans&atilde;o no Oeste americano - e  descont&iacute;nuo no Brasil, no tempo e no espa&ccedil;o, come&ccedil;ando e se interrompendo como  no caso de Goi&aacute;s, por exemplo, que colonizado por mineradores no s&eacute;culo XVIII,  s&oacute; conheceu outro per&iacute;odo de anexa&ccedil;&atilde;o e ocupa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica de terras nos anos  1930, com a Marcha para o Oeste<a href="#no"><sup>4</sup></a>.<br />       O estado de Goi&aacute;s &eacute; parte integrante da constru&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica do  sert&atilde;o, definido, desde o per&iacute;odo colonial, como o desconhecido, o long&iacute;nquo e  o selvagem. A esses atributos soma-se ainda, a partir de 1780, com o  esgotamento do ciclo aur&iacute;fero, o estigma da decad&ecirc;ncia e do atraso fixado pelos  relatos dos viajantes europeus, pelos relat&oacute;rios dos administradores e pela  fic&ccedil;&atilde;o regionalista. De tal modo essa defini&ccedil;&atilde;o euroc&ecirc;ntrica da regi&atilde;o foi  integrada pelo senso comum e pelos pol&iacute;ticos e intelectuais locais, que o  historiador Paulo Bertran (1994) batizou-a de &quot;paradigma da decad&ecirc;ncia de  Goi&aacute;s&quot;:<br />       <i>&quot;H&aacute; duas ou tr&ecirc;s coisas  sobre a Hist&oacute;ria de Goi&aacute;s que &eacute; oportuno despoluir para obtermos objetos mais  &uacute;teis e mais iluminados (...). Um deles &eacute; o paradigma da decad&ecirc;ncia de Goi&aacute;s no  passado, que ao sentir de alguns escritores iria desde a abrupta queda da  minera&ccedil;&atilde;o em 1780 at&eacute; um vari&aacute;vel fim, segundo uns at&eacute; 1914 com a entrada da  estrada de ferro, segundo outros at&eacute; 1937 com o Estado Novo e a Constru&ccedil;&atilde;o de  Goi&acirc;nia. Haja decad&ecirc;ncia! No caso extremo nada menos do que 157 anos de  &quot;decad&ecirc;ncia&quot;. Deve ser erro de denomina&ccedil;&atilde;o ou erro de conceito&quot;</i> (Bertran, 1994:6).<br />       Integrado o paradigma da decad&ecirc;ncia como representa&ccedil;&atilde;o e explica&ccedil;&atilde;o  da regi&atilde;o, a maior parte dos estudos procura ent&atilde;o operar uma descontinuidade  com essa defini&ccedil;&atilde;o negativa, fixando como momento de ruptura a integra&ccedil;&atilde;o da  regi&atilde;o &agrave; economia de mercado e ao centro de poder nacional, nos anos 1930.<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[  Ao contr&aacute;rio dos viajantes e cronistas, que enfatizam o isolamento e  o atraso de Goi&aacute;s, e da literatura regionalista, que privilegia os usos e  costumes r&uacute;sticos do sert&atilde;o, aqueles estudos procuram<a href="#no"></a> qualificar a ruptura ou a mudan&ccedil;a recente por que vem passando a sociedade  goiana em rela&ccedil;&atilde;o a um passado agro-pastoril definido como relativamente  homog&ecirc;neo e longo. Nesses trabalhos, a mudan&ccedil;a &eacute; sempre entendida como  decorrente do processo de integra&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o aos centros din&acirc;micos da  economia e o desenvolvimento capitalista &eacute; o referente explicativo dos diversos  objetos analisados pelos estudiosos. Tal como entendo, para al&eacute;m das raz&otilde;es  cient&iacute;ficas que justificam o uso das teorias de moderniza&ccedil;&atilde;o ou das categorias  do materialismo hist&oacute;rico para a explica&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o, a &ecirc;nfase na mudan&ccedil;a  revela o desejo de constru&ccedil;&atilde;o de uma imagem positiva da regi&atilde;o e a  neutraliza&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas estigmatizantes da identidade regional. Nesse  sentido, os trabalhos produzidos pelos historiadores e cientistas sociais  goianos agregam-se ao discurso pol&iacute;tico e &agrave;s formula&ccedil;&otilde;es dos escritores e  artistas para compor o sentimento comum de goianidade.</font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif">  <b>VIOL&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif">O sert&atilde;o &eacute; concebido como espa&ccedil;o da viol&ecirc;ncia em decorr&ecirc;ncia tanto  de formas de domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica quanto de movimentos religiosos, como os  movimentos messi&acirc;nicos e milenaristas que a&iacute; se desenrolaram desde o primeiro  s&eacute;culo da coloniza&ccedil;&atilde;o (1530). Embora haja registros contempor&acirc;neos destes  movimentos nas &aacute;reas urbanas do Brasil e dos Estados Unidos, como a  Fraternidade Ecl&eacute;tica Espiritualista Universal, liderada por Yokanaanam, na  d&eacute;cada de 1940, no Rio de Janeiro; o movimento ufologista de Aladino F&eacute;lix, na  d&eacute;cada de 1960, em S&atilde;o Paulo e o caso Jim Jones nos EUA etc., a maior parte dos  movimentos ocorridos no Brasil se deram em &aacute;reas rurais, escasseando na d&eacute;cada  de 1930, em decorr&ecirc;ncia da industrializa&ccedil;&atilde;o e conseq&uuml;ente urbaniza&ccedil;&atilde;o da  sociedade brasileira (Negr&atilde;o 2001).<br />       A maior parte dos trabalhos dos especialistas, com not&aacute;veis exce&ccedil;&otilde;es,  considera estes movimentos como &quot;rea&ccedil;&otilde;es a condi&ccedil;&otilde;es de exist&ecirc;ncia materiais,  sociais e ps&iacute;quicas sentidas como adversas pelos segmentos sociais que as  protagonizam&quot;. Para tais autores a dimens&atilde;o econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica e social tem  preced&ecirc;ncia sobre a dimens&atilde;o simb&oacute;lica, isto &eacute;, sobre os sistemas de cren&ccedil;as e  os mitos que fundamentam os movimentos. Assim, estes aparecem como irracionais  e pr&eacute;-pol&iacute;ticos desde que as metas do movimento - transformar o mundo - est&atilde;o  imersas numa linguagem escatol&oacute;gica do fim dos tempos e na cren&ccedil;a de reden&ccedil;&atilde;o  por intermedia&ccedil;&atilde;o de um messias. &quot;De uma perspectiva negativa, os adeptos s&atilde;o  taxados de loucos, sanguin&aacute;rios, bandidos ou fan&aacute;ticos; sob uma &oacute;tica positiva  ou paternalista, de ing&ecirc;nuos, pac&iacute;ficos, m&iacute;sticos ou cat&oacute;licos- ortodoxos&quot;  (Silva Queiroz, 2005:140).<br />       Em qualquer destas duas perspectivas o sertanejo aparece como  incapaz de usar uma linguagem pol&iacute;tica e como apegado a tradi&ccedil;&otilde;es irracionais  em luta contra a modernidade. Aqui se ignora que s&atilde;o os valores que orientam as  a&ccedil;&otilde;es e lhes d&atilde;o sentido, pois se trata de uma opera&ccedil;&atilde;o reducionista que busca  antes a determina&ccedil;&atilde;o social do simb&oacute;lico que a determina&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do  social, dimens&atilde;o simb&oacute;lica esta que inaugura a pr&oacute;pria ordem humana.&nbsp; Ao contr&aacute;rio das interpreta&ccedil;&otilde;es  contempor&acirc;neas que entendem que as &quot;metas e estrat&eacute;gias s&atilde;o coerentes com uma  vis&atilde;o de mundo particular e articulada&quot;, os trabalhos anteriores sobre os  movimentos messi&acirc;nicos e milenaristas concebiam o discurso religioso campon&ecirc;s  como express&atilde;o da incapacidade de &quot;empregar a linguagem da raz&atilde;o e condenado a  se expressar por meio de formas alienadas, desprovidas da legitimidade de  sistemas de leitura do mundo&quot; (Silva Queiroz, 2005:146). Em rela&ccedil;&atilde;o a isto,  cito Segato (2007) que diz que &quot;existe um cen&aacute;rio nacional que d&aacute; unidade de  sentidos- cenogr&aacute;fico - aos discursos que nele se encontram e se confrontam. A  cena foi e &eacute; desenhada por um discurso que se tornou hegem&ocirc;nico por que nele  participaram os mais diversos componentes da na&ccedil;&atilde;o&quot;, por coer&ccedil;&atilde;o ou persuas&atilde;o (Segato,  2007:30). Esta unidade de sentidos, que &eacute; a na&ccedil;&atilde;o, constitui a refer&ecirc;ncia  legitimada contra a qual vem se quebrar os discursos formulados a partir das  margens da na&ccedil;&atilde;o.<br />       A viol&ecirc;ncia gerada pelos movimentos messi&acirc;nicos e milenaristas diz  respeito tanto &agrave;quela praticada pelos adeptos- sacrif&iacute;cios de adultos, jovens e  crian&ccedil;as - quanto &agrave; deflagrada contra eles pela pol&iacute;cia, pelo ex&eacute;rcito, pelo  coronel e seus jagun&ccedil;os. Como exemplo do primeiro, cito o movimento de Pedra  Bonita, em Pernambuco, em 1838. Este movimento conquistou adeptos em torno da  id&eacute;ia de que El Rei Dom Sebasti&atilde;o voltaria com um grande ex&eacute;rcito para  implantar uma era de justi&ccedil;a e de riquezas.<br />       Liderados por Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio e Francisco Jos&eacute; Correia de Albuquerque,  os adeptos participavam de ritos sacrificiais envolvendo adultos e crian&ccedil;as  como condi&ccedil;&atilde;o da instaura&ccedil;&atilde;o do Reino Encantado na terra. Em 1838, em confronto  com a Guarda Nacional, in&uacute;meros sebastianistas foram mortos, presos ou fugiram.  Os movimentos sebastianistas foram muito freq&uuml;entes no Brasil. At&eacute; o final do  s&eacute;culo XIX, os movimentos milenaristas e messi&acirc;nicos eram, sobretudo, de  inspira&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica. A partir do s&eacute;culo XX aparecem os primeiros movimentos de  inspira&ccedil;&atilde;o protestante e esp&iacute;rita.<br />       O olhar dos letrados define tamb&eacute;m como viol&ecirc;ncia do sert&atilde;o aquela  praticada pelos retirantes, cangaceiros, volantes e beatos. A viol&ecirc;ncia dos  retirantes que perderam suas terras, a viol&ecirc;ncia dos cangaceiros dirigida  contra todos, a viol&ecirc;ncia dos beatos inflamando o sert&atilde;o com promessas inalcan&ccedil;&aacute;veis  e a viol&ecirc;ncia dos volantes, leia - ex&eacute;rcito - que com o subterf&uacute;gio de  restaurar a ordem criavam novos &oacute;dios e outras desordens.<br />     &nbsp;A viol&ecirc;ncia diz respeito  tamb&eacute;m ao uso que os coron&eacute;is faziam destes movimentos, antes de eles serem  brutalmente destru&iacute;dos, como por exemplo, o movimento de Santa Dica no estado  de Goi&aacute;s, entre 1910 e 1914. Santa Dica dos Anjos liderou um movimento  messi&acirc;nico que contava com cerca de 15 000 pessoas, sendo 1500 capacitados para  o uso de armas.<br />     Pregava a distribui&ccedil;&atilde;o e o uso comum da terra - come&ccedil;ando com sua  pr&oacute;pria fazenda, que n&atilde;o era cercada e cuja produ&ccedil;&atilde;o era distribu&iacute;da aos pobres  -; a aboli&ccedil;&atilde;o dos impostos e do uso do dinheiro. Fazia curas milagrosas, falava  com anjos e aguardava a vinda do messias para a inaugura&ccedil;&atilde;o de uma terra de  justi&ccedil;a e sem pobreza.<br />     ]]></body>
<body><![CDATA[Em 1924, por ordem do governador de Goi&aacute;s, o comandante da Pol&iacute;cia  Militar pediu a Santa Dica dos Anjos que reunisse seus adeptos e impedisse a  passagem da Coluna Prestes pelo estado de Goi&aacute;s com destino &agrave; Bol&iacute;via. Sobre  este fato h&aacute; controv&eacute;rsias, pois certos autores afirmam que ela teria atendido  ao governador e outros que n&atilde;o. <br />     O que se sabe, com certeza, &eacute; que em 1925 o governo do estado enviou  um destacamento para sitiar e prender Santa Dica e tomar as armas que lhe  tinham sido dadas, a partir de uma solicita&ccedil;&atilde;o dos coron&eacute;is locais. O sistema  coronelista &eacute; forjado como se sabe numa hierarquia que subordina o coronel &agrave;s  oligarquias estaduais, e estas ao governo da Uni&atilde;o, isto &eacute;, subordina o  munic&iacute;pio ao governo do estado e este ao governo central. O prestigio do  coronel depende inteiramente de rela&ccedil;&otilde;es complementares com o governo do  estado, isto &eacute;, troca de favores rec&iacute;procos.<br />     Do confronto com a pol&iacute;cia militar ficaram feridos tr&ecirc;s adeptos e a  santa foi presa e solta logo depois por press&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o. Saiu de l&aacute;  cooptada para a pol&iacute;tica, que come&ccedil;ou exercendo como cabo eleitoral das  oligarquias, j&aacute; que comandava 4000 votos. Como cabo de um ex&eacute;rcito de 150  homens, lutou na Revolu&ccedil;&atilde;o Constitucionalista de 1932, em S&atilde;o Paulo.<br />     Este arranjo coronel&iacute;stico, que consistia numa alian&ccedil;a entre os  coron&eacute;is que controlavam os votos no n&iacute;vel municipal, as oligarquias estaduais  e o governo da Uni&atilde;o, ocorreu em todas as regi&otilde;es brasileiras, durante a Rep&uacute;blica  Velha (1888-1930). Caracteriza-se tal arranjo por uma grande quantidade de  poder concentrada nas m&atilde;os de um chefe local, grande propriet&aacute;rio,  latifundi&aacute;rio ou fazendeiro que, apoiados pelo governo estadual, obtinham apoio  para a constru&ccedil;&atilde;o de estradas, energia el&eacute;trica, &aacute;gua encanada, empregos  p&uacute;blicos, refor&ccedil;ando o mando dos coron&eacute;is nas comunidades e lhes garantido  apoio pol&iacute;tico. Este fen&ocirc;meno modelou o imagin&aacute;rio brasileiro particularmente  nas express&otilde;es liter&aacute;rias, nas narrativas cinematogr&aacute;ficas e musicais.<br />     Os coron&eacute;is podiam ser ricos ou remediados, relativamente &agrave; pobreza  das &aacute;reas rurais, mas eles certamente pertenciam a fam&iacute;lias que h&aacute; muito tempo  'eram donas do poder', e como coron&eacute;is comandavam o destacamento local da  Guarda Nacional, que era usado entre outras coisas para reprimir os movimentos  messi&acirc;nicos e milenaristas. A riqueza dos coron&eacute;is, a terra, era adquirida e  preservada atrav&eacute;s do matrim&ocirc;nio. Quando o destacamento da Guarda Nacional era  insuficiente, o coronel solicitava o auxilio do governo do estado ou da Uni&atilde;o,  com a condi&ccedil;&atilde;o de que pertencesse ao mesmo grupo pol&iacute;tico.<br />     Para alguns autores o substrato do dom&iacute;nio pol&iacute;tico do coronel seria  a propriedade da terra, para outros o prest&iacute;gio e a honra tradicionalmente  adscritos ao coronel por seus correligion&aacute;rios. De qualquer modo o cargo n&atilde;o  seria ocupado por camponeses ou trabalhadores rurais. O coronel poderia cooptar  o advogado, o padre, o m&eacute;dico, o comerciante, o oficial militar como fonte de  recursos e de prest&iacute;gio pessoal, mas estas estes profissionais dependiam  inteiramente do primeiro.<br />     At&eacute; os anos 1970, os estudos produzidos sobre o fen&ocirc;meno do  coronelismo privilegiavam os estados &quot;mais desenvolvidos&quot;. Alguns autores,  inclusive, chegaram a propor uma tipologia para distinguir o coronelismo  pr&oacute;prio das regi&otilde;es &quot;desenvolvidas&quot; e aqueles espec&iacute;ficos das regi&otilde;es  &quot;atrasadas&quot;, o que nos demonstra a efic&aacute;cia da narrativa da modernidade na  na&ccedil;&atilde;o brasileira (Campos, 1987). De qualquer modo o sistema se apoiava no  federalismo hegem&ocirc;nico dos grandes estados, significando que apesar da  autonomia concedida a estes na passagem da Monarquia para a Rep&uacute;blica, havia  j&aacute;, no alvorecer da Rep&uacute;blica, os estados perif&eacute;ricos sem poder e os estados  centrais.<br />     Segundo Nunes Leal&nbsp; o  coronelismo seria o resultado da &quot;superposi&ccedil;&atilde;o de formas desenvolvidas do  regime representativo a uma estrutura econ&ocirc;mica e social inadequada&quot;, como se  as coisas estivessem fora do lugar numa perspectiva de incompletude do processo  civilizat&oacute;rio entre n&oacute;s. O fato de o poder privado dos coron&eacute;is ser subsidiado  pelo poder p&uacute;blico &eacute; que teria gerado &quot;o mandonismo, o filhotismo, o  falseamento de votos e a desorganiza&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos locais&quot; (1986:20).<br />     De qualquer modo o per&iacute;odo hist&oacute;rico da Primeira Rep&uacute;blica ou  Rep&uacute;blica Velha, no qual se estruturaram estas oligarquias, foi marcado por  brigas entre as grandes fam&iacute;lias, entre os coron&eacute;is, seus jagun&ccedil;os, cabras e  cangaceiros como constam das narrativas liter&aacute;rias e cinematogr&aacute;ficas  brasileiras. Embora este fen&ocirc;meno tenha sido geral em todas as regi&otilde;es  brasileiras, agora ele aparece cristalizado no espa&ccedil;o m&iacute;tico do sert&atilde;o. Neste  sentido podemos dizer que o sert&atilde;o &eacute; o deposit&aacute;rio do passado da sociedade  brasileira, da mem&oacute;ria que n&atilde;o quer ser lembrada; da&iacute; porque o sert&atilde;o se constitui  numa amea&ccedil;a e deve, portanto, ser derrotado, literal e simbolicamente.</font></p>     <p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SOCIABILIDADE</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="left"><font size="3" face="Arial, Helvetica, sans-serif">As formas de sociabilidade geralmente atribu&iacute;das ao sert&atilde;o s&atilde;o  aquelas tradicionais, isto &eacute;, fundada na no&ccedil;&atilde;o de pessoa e n&atilde;o na de individuo,  como na ideologia da modernidade. Enquanto a moderna no&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duo  implica, como configura&ccedil;&atilde;o, nas id&eacute;ias correlatas e universalistas de  democracia, competi&ccedil;&atilde;o e igualdade, a no&ccedil;&atilde;o de pessoa carrega como conseq&uuml;&ecirc;ncia  as id&eacute;ias paroquiais de hierarquia, lealdade, favor, sujei&ccedil;&atilde;o. De fato como foi  dito antes, o coronelismo se pauta no modelo familiar de rala&ccedil;&otilde;es, isto &eacute;,  rela&ccedil;&otilde;es de complementaridade como as existentes entre pai e filho, afilhado e  padrinho, patr&atilde;o e cliente. Era o coronel a quem se pediam empr&eacute;stimos - j&aacute; que  s&oacute; ele tinha acesso aos bancos - quem arranjava advogados, m&eacute;dicos, hospitais,  pousada e refei&ccedil;&otilde;es, roupas, sapatos e at&eacute; chap&eacute;us, para as &eacute;pocas de elei&ccedil;&otilde;es.  Al&eacute;m de conseguir com o apoio do governo estadual energia el&eacute;trica, saneamento  b&aacute;sico, etc. A lealdade &eacute; o cimento das rela&ccedil;&otilde;es do tipo familiar; por isto se  diz no Brasil 'que para os amigos tudo e para os advers&aacute;rios a lei'. A lei, que  &eacute; uma categoria da modernidade, &eacute; suficiente para os inimigos, naquilo que ela  possui de arb&iacute;trio e de rigor, na sociedade brasileira.<br />   De qualquer modo, no contexto do coronelismo, estas rela&ccedil;&otilde;es de  depend&ecirc;ncia e subordina&ccedil;&atilde;o eram 'normais', isto &eacute;, eram rela&ccedil;&otilde;es socialmente  institucionalizadas, econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica e culturalmente. De qualquer modo as  rela&ccedil;&otilde;es complementares pressup&otilde;em a hierarquia e, portanto, a depend&ecirc;ncia e a  subordina&ccedil;&atilde;o, caracter&iacute;sticas do coronelismo.<br />   H&aacute; um consenso entre os autores de que este modelo hier&aacute;rquico de  organiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais, pois &eacute; disto que se trata, seja heran&ccedil;a do  per&iacute;odo colonial. De todo modo se acredita tamb&eacute;m que este modelo ainda  predomina nas &aacute;reas rurais brasileiras, na atualidade. De fato no per&iacute;odo  colonial as casas-grandes, al&eacute;m do sistema produtivo fundado na escravid&atilde;o,  funcionavam tamb&eacute;m como banco, fortaleza, cemit&eacute;rio, hospedaria, escola,  hospital, orfanato, convento, asilo de vi&uacute;vas e de velhos, ocupando o senhor as  fun&ccedil;&otilde;es de juiz, magistrado, pol&iacute;cia, benfeitor. &Eacute; certo, por&eacute;m, que este  sistema tinha sua moralidade e sua &eacute;tica pr&oacute;prias que fundamentavam e davam  sentido &agrave;s pr&aacute;ticas sociais (Freyre, 1963).&nbsp;  Para Roberto Da Matta, dessa heran&ccedil;a ib&eacute;rica nos adv&ecirc;m at&eacute; hoje um  tra&ccedil;o, para ele estruturante da sociedade brasileira que &eacute; a ossatura  hier&aacute;rquica e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias, como o primado das rela&ccedil;&otilde;es pessoais. Para o  autor, &quot;h&aacute; uma na&ccedil;&atilde;o brasileira que opera fundados nos seus cidad&atilde;os e uma  sociedade brasileira que funciona fundada nas media&ccedil;&otilde;es tradicionais&quot; (Roberto  Da Matta,1987:95). &Eacute; por esta raz&atilde;o que ele chama a sociedade brasileira de uma  sociedade relacional, no sentido de que estes diferentes dom&iacute;nios morais mant&ecirc;m  entre si, rela&ccedil;&otilde;es de concilia&ccedil;&atilde;o, negocia&ccedil;&atilde;o e grada&ccedil;&atilde;o. A na&ccedil;&atilde;o seria o l&oacute;cus  da modernidade com seus valores de individualismo, democracia e leis  impessoais, de car&aacute;ter nivelador e igualit&aacute;rio enquanto que a sociedade  brasileira seria o espa&ccedil;o das rela&ccedil;&otilde;es de filia&ccedil;&atilde;o social.<br />   Atrav&eacute;s destas rela&ccedil;&otilde;es de filia&ccedil;&atilde;o circulam o dom e o contra-dom, o  benef&iacute;cio e o favor. Segundo Schwarz (2001) o favor tem atravessado toda nossa  exist&ecirc;ncia nacional, constituindo nossa media&ccedil;&atilde;o &quot;quase universal&quot;, o que teria  tido inicio com os homens livres na ordem escravocrata e sua rela&ccedil;&atilde;o de  depend&ecirc;ncia, gratid&atilde;o e lealdade em rela&ccedil;&atilde;o aos senhores, do qual dependiam  para reprodu&ccedil;&atilde;o de sua exist&ecirc;ncia social e material.<br />   Ao tomar o sert&atilde;o como objeto de reflex&atilde;o me propus compreender como  a na&ccedil;&atilde;o cont&eacute;m processos de constru&ccedil;&atilde;o de outros internos e diferentes a partir  da generaliza&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica do mercado capitalista, de configura&ccedil;&otilde;es de valores  morais e de organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas que legitimariam uma historicidade e uma  modernidade em detrimento de outras e distintas realidades.<br />   O sert&atilde;o &eacute; resto de uma incompleta totaliza&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o brasileira.  Toda totaliza&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s, &eacute; incompleta, no sentido de que sempre deixa restos e  res&iacute;duos. Estes restos s&atilde;o a mat&eacute;ria de que s&atilde;o feitas as utopias, conforme  pretendi sugerir. O sert&atilde;o &eacute; um reino a desencantar e decifrar.</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b><a name="no" id="no"></a>Notas</b></font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>1</sup> Desde o inicio dos anos 1970, v&aacute;rios artigos criticaram a representa&ccedil;&atilde;o  dualista do Brasil, dentre eles o de Francisco de Oliveira <i>A economia brasileira</i>: cr&iacute;tica &agrave; raz&atilde;o dualista, 1971.</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"> <sup>2</sup> Para uma vers&atilde;o diferente do sert&atilde;o, agora como lugar da fartura, ver Lima,  2006.</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"> <sup>3</sup> Citado em Vicentina, 1998.</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"> <sup>4</sup> Uma refer&ecirc;ncia importante na integra&ccedil;&atilde;o da  regi&atilde;o Centro-Oeste &eacute; a Marcha para o Oeste. Sobre o assunto, ver Cassiano  Ricardo (1970).</font></p>     <p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Referencias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">1. Albuquerque Jr., Durval Muniz de.    2001 <i>A inven&ccedil;&atilde;o do Nordeste e  outras artes</i>. Recife: FJN, Ed. Massangana; S&atilde;o Paulo: Cortez.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703113&pid=S1851-1694201000020000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">2. Arruda, Gilmar.    2000 <i>Cidades e sert&otilde;es:</i> entre a hist&oacute;ria e a mem&oacute;ria. Bauru, SP: EDUSC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703115&pid=S1851-1694201000020000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">3. Arruda, Maria A. do Nascimento.    1990 <i>Mitologia da mineiridade</i>.  Editora Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703117&pid=S1851-1694201000020000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">4. Bastide, Roger.    1959 <i>Brasil, terra de  contrastes</i>. S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro: Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703119&pid=S1851-1694201000020000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">5. Bertran, Paulo.    1994 Mem&oacute;ria cons&uacute;til e a goianidade. <i>Ci&ecirc;ncias Humanas em Revista,</i> Goi&acirc;nia, v. 5, n.1, jan./jun.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703121&pid=S1851-1694201000020000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">6. Bhabha, Homi K.<i>O local da  cultura</i>. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703123&pid=S1851-1694201000020000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->   </font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">7. Campos, Francisco   1987 &nbsp;Itami. <i>Coronelismo em Goi&aacute;s</i>. Goi&acirc;nia: Editora  UFG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703125&pid=S1851-1694201000020000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">8. Costa, Jo&atilde;o Batista de Almeida.    2003 <i>Mineiros e baianeiros:</i> englobamento, exclus&atilde;o e entre - lugar. Tese (Doutorado em Antropologia Social)  - Universidade de Bras&iacute;lia. Bras&iacute;lia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703127&pid=S1851-1694201000020000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">9. Cristov&atilde;o, Fernando.   2004 A transfigura&ccedil;&atilde;o da realidade sertaneja e a sua passagem a  mito. S&atilde;o Paulo: <i>Revista da USP</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703129&pid=S1851-1694201000020000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">10. Cunha, Euclides da<i>. </i>   1963 <i>Os sert&otilde;es.</i> Bras&iacute;lia:  Editora da Universidade de Bras&iacute;lia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703131&pid=S1851-1694201000020000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">11. Da Matta, Roberto.    1987 <i>A casa e a rua</i>. Rio  de Janeiro: Editora Guanabara.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703133&pid=S1851-1694201000020000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">12. Elias, Norbert.    1994 <i>O processo civilizador:</i> uma hist&oacute;ria dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703135&pid=S1851-1694201000020000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">13. Flusser, Vil&eacute;m.    1969 Guimar&atilde;es Rosa e a geografia. Em: <i>Kriterion</i>,  v.10, n.3<b>: </b>275-278.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703137&pid=S1851-1694201000020000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">14. Freyre, Gilberto<i>.</i>   1963<i> Casa-Grande e Senzala</i>.  Bras&iacute;lia: Editora da Universidade de Bras&iacute;lia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703139&pid=S1851-1694201000020000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">15. Guimar&atilde;es Rosa, Jo&atilde;o.   1967 <i>Grande Sert&atilde;o:</i> veredas. Rio de Janeiro: Editora Jos&eacute; Olympio.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703141&pid=S1851-1694201000020000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">16. Lambert, Jaques   1967 <i>Os dois Brasis.</i> S&atilde;o  Paulo: Editora Nacional.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703143&pid=S1851-1694201000020000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">17. L&eacute;vi-Strauss.    1975 <i>Antropologia estrutural</i>.  Rio de Janeiro: Editora Tempo Brasileiro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703145&pid=S1851-1694201000020000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->   </font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">18. L&eacute;vi-Strauss 1978&nbsp; <i>Antropologia estrutural II</i>. Rio de Janeiro: Editora Tempo  Brasileiro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703147&pid=S1851-1694201000020000500018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->   </font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">19. L&eacute;vi-Strauss 1970 <i>O pensamento selvagem</i>.  S&atilde;o Paulo: Companhia Editora Nacional.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703149&pid=S1851-1694201000020000500019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">20. Lima, Nei Clara de.    2006 Os crespos do sert&atilde;o. Em: <i>O  P&uacute;blico e o Privado</i>: 151-159 n. 7, jan./jun.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703151&pid=S1851-1694201000020000500020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">21. Martins, Wilson.    1968 Guimar&atilde;es Rosa na  sala de aula. In Daniel, Mary. L. <i>Jo&atilde;o  Guimar&atilde;es</i> <i>Rosa</i>: travessia  liter&aacute;ria. Rio de Janeiro: Livraria Jos&eacute; Olympio.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703153&pid=S1851-1694201000020000500021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">22. Negr&atilde;o, L&iacute;sias Nogueira   2001 Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando seu futuro.<i> RBCS</i>, vol.16: 119-129, jun.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703155&pid=S1851-1694201000020000500022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">23. Nunes Leal, Victor   1975. <i>Coronelismo, enxada e  voto</i>. S&atilde;o Paulo: Alfa-&Ocirc;mega.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703157&pid=S1851-1694201000020000500023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">24. Oliveira, L&uacute;cia Lippi.   2000 <i>Americanos:</i> representa&ccedil;&otilde;es da identidade nacional no Brasil e nos EUA. Belo Horizonte:  Editora UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703159&pid=S1851-1694201000020000500024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">25. Ricardo, Cassiano.   1970 <i>Marcha para Oeste:</i> a  influ&ecirc;ncia da bandeira na forma&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica do Brasil. Rio de Janeiro:  Jos&eacute; Olympio.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703161&pid=S1851-1694201000020000500025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->    </font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">26 </font><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">Pimentel, S. V. e Amado, Janaina (orgs).1995 <i>Passando dos limites. </i>Goi&acirc;nia: Editora UFG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703163&pid=S1851-1694201000020000500026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">27. Segato, Rita<i>.</i>   2007<i> La naci&oacute;n y sus otros:</i> raza, etnicidad y diversidad religiosa em  tiempos de pol&iacute;ticas de la identidad. Buenos Aires: Prometeo Libros.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703165&pid=S1851-1694201000020000500027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">28. Sena Filho,    2008 N.O deserto de Deus e o Sert&atilde;o dos homens: Guimar&atilde;es Rosa e o  deserto do Sinai. Em Salma Ferraz (org.). <i>No  princ&iacute;pio era Deus e ele se fez poesia</i>. Acre: EDUFAC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703167&pid=S1851-1694201000020000500028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">29. Sena, Cust&oacute;dia Selma.    2003 <i>Interpreta&ccedil;&otilde;es dualistas  do Brasil</i>. Goi&acirc;nia, GO: Editora UFG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703169&pid=S1851-1694201000020000500029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">30. Said, Edward W.    2001 <i>O orientalismo. </i>S&atilde;o  Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703171&pid=S1851-1694201000020000500030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">31. Schama, Simon.    1996 <i>Paisagem e mem&oacute;ria</i>.  S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703173&pid=S1851-1694201000020000500031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">32. Silva e Queiroz, Renato da.   2005 Mobiliza&ccedil;&otilde;es sociorreliogiosas no Brasil: os surtos  messi&acirc;nicos- milenaristas. Em: S&atilde;o Paulo, <i>Revista  USP</i>, set./nov, pp. 132-149.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703175&pid=S1851-1694201000020000500032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">33. Silveira, Flavio L.Abreu da e Cancela Cristina D.    2009 <i>Paisagem e cultura</i>.  Em Silveira, Fl&aacute;vio L. A. da. A paisagem como fen&ocirc;meno complexo, reflex&otilde;es  sobre um tema interdisciplinar.&nbsp; Bel&eacute;m:  EDUFPA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703177&pid=S1851-1694201000020000500033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">34. Suarez, Mireya   1998 Um personagem m&iacute;tico. Em: Goi&acirc;nia: <i>Sociedade e Cultura</i>. Vol.1, n.1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703179&pid=S1851-1694201000020000500034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">35. Schwarz, Roberto   2001 <i>Cultura e pol&iacute;tica</i>.  S&atilde;o Paulo: Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703181&pid=S1851-1694201000020000500035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">36. Vicentina, Albertina.    1998 O sert&atilde;o e a literatura. Em: Goi&acirc;nia, <i>Sociedade e Cultura,</i> 1 (1): 41-54, jan./jun.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703183&pid=S1851-1694201000020000500036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p align="left"><font size="2" face="Arial, Helvetica, sans-serif">37. Vidal e Souza, Candice.   1997 <i>A p&aacute;tria geogr&aacute;fica:</i> sert&atilde;o e litoral no pensamento social brasileiro. Goi&acirc;nia: Editora UFG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=703185&pid=S1851-1694201000020000500037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body><back>
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